domingo, 14 de maio de 2017

Amanhã

(Este texto participaria do concurso literário da Sweek, mas perdi a hora da publicação então vocês terão a honra de ler o ex-futuro-ganhador do concurso literário de maio do site Sweek!)

O teto.
Pardo.
Sombreado. Claro.
O som.
Grunhidos. Desabafos. Sussurros.
Suspiro.
Silêncio. Suave.
Dia. Corpos inertes.
E ela, que não dorme! Já reconstruiu Roma dezenas de vezes em suas fantasias enquanto o parceiro dormia. A noite teve todos os encantos da perfeição, do jantar no iate ao sexo no melhor do mundo: sua cama. E diante da maravilha não cabiam drogas, controladores, bloqueadores, então, para ser feliz, Elice não tomou seus remédios.
Sem surpresa, cansada e ausente de sono, sentia a mesma alegria mofada de sempre.
Quando finalmente terminou de mobiliar seu apartamento convidou a mãe para abrirem juntas e entrarem com o pé direito ao mesmo tempo. Ali naquele sonho realizado a mãe estava em lágrimas enquanto a filha parecia sentir com a cabeça, não com o corpo e a alma. Ante a reação da moça, a mãe pergunta se estava feliz. Sim, estava! E mais, estava demonstrando! Mas era aquela a sua alegria. Com tantas barreiras químicas as emoções intensas se transformam num leve ruído por trás da música que toca no rádio.
- Mãe, sabe como é quando você tá prestes a gozar aí PUF! do nada...acaba tudo? É assim que eu sinto, que sou alegre. Eu tô feliz, fica tranquila.

A luz do sol entrava pela janela e ia cobrindo a cama conforme as horas passavam. Com as cortinas abetas ele acordaria em breve. Ela contou os passos de ida e volta até a janela. Repetiu a contagem, imaginou a cena, sentiu a própria pele iluminando-se lentamente.
- Tudo bem?
- Acordou!? (Claro, não fechei a cortina!)
- E você, dormiu?
- Não, sem sono. E gosto de te ver dormir.

Em dado momento de sua vida, pouco depois da adolescência, começou a relacionar "Tudo bem?" a "Eu te amo!". Jamais esteve tudo bem e alguma vezes ia tudo muito, muito mal e justamente nessas fases as pessoas que se importavam com a jovem faziam a pergunta mais absurda para uma pessoa em pânico-colada-à-porta-do-carro-sem-mover-um-músculo, em pranto há horas sem fio, que comprou uma passagem para Berlim com partida para o dia seguinte e nem passaporte possui, que esqueceu a própria assinatura no cartório no momento de "reconhecimento de firma", passou cinco dias sem comer/falar/dormir. "Tudo bem?" era o modo respeitoso e amoroso de dizer "Não entendo porra nenhuma, mas estou aqui".

Elice queria dormir sem remédios, como ele. Não que tenha mentido quando disse gostar de vê-lo dormir, mas poderia sentir o mesmo olhando para uma foto. Agora estava ali contando os minutos para ficar sozinha e finalmente dormir o péssimo sono dos ansiolíticos. O sono natural era tão raro em sua vida que trazia a lembrança dele como algo muito precioso.
- Não vai trabalhar?
- Eu!? Em férias, esqueceu? Nós dois!
Ela remarcou as clientes para a noite por saber que não  dormiria durante o encontro, mas nada mais havia sido modificado em sua rotina de trabalho, fosse agenda ou demais compromissos. Ficou esperando que ele parasse com a brincadeira enquanto o namorado apresentava decepção, tristeza, raiva. Ela queria falar. Ele também. Ele queria muitas coisas, mas naquele momento baixou lenta e pesadamente a cabeça e caminhou até a cozinha, voltando em seguida com água e sua caixa com as doses diárias de remédios.
- Durma. Eu te acordo quando for embora.

As pessoas dizem, ao ver alguém parada, que esta não teve reação. Não percebem que aquela ausência de movimentos foi a reação. E adormeceu pensando em dizer-lhe isso quando acordasse. A rua que acordada embalou seu adormecer, enquanto ela sentia as lágrimas geladas molharem seu pescoço e pensava se "embora" quis dizer "vou para a minha casa" ou "viajarei sem você"...mas que viagem foi essa, afinal?

Haviam combinado e comprado um pacote com passagens, passeios e hotel, nada que trouxesse cansaço ou aborrecimentos desnecessários. As férias dele estavam certas e Elice, brilhando de animação, já começou rabiscar a agenda para readequar tudo. Cinco dias depois foi internada com desidratação e anemia, além de confusão mental e depressão severa. A mãe desmarcou os compromissos até seu restabelecimento. Em uma semana estava trabalhando, cuidando de suas plantas e do cachorro e remarcando as clientes. A viagem e as férias foram apagadas como se estivesse sonhando e fosse subitamente acordada. Ficou apenas o susto, logo também esquecido.

Preencher o ticket de passagem na rodoviária era feito com o mesmo cuidado que tinha ao escrever ou cozinhar. Seus principais planos incluíam conhecer dois países de cada continente. A próxima viagem seria para o Chile, faria um passeio ciclístico com um grupo de amigos que planejavam tudo meticulosamente há meses; haveria veículo de apoio e a polícia local seria informada para contarem com maior segurança. Desta vez a viagem seria financiada pelo banco do qual é cliente, pois fora escolhido Cliente Master do ano!

- Parece que vai demorar essa partida, né? Ela falou baixinho, sem querer ser inconveniente, mais para desabafar mesmo.
- Estão esperando o motorista reserva, cheguei aqui bem cedo e ouvi as conversas entre os funcionários, alguém da equipe faltou.

A conversa pareceu inusitada para Elice, como se fosse estranho que mais alguém estivesse no único ônibus do dia para a capital. Estava preocupada, ansiosa, já havia perdido o voo e ia em buscar de salvar o que pudesse da viagem com o namorado.

- Não costumo viajar assim...Tentou explicar-se. (Explicar o quê e para quem!?)
- De ônibus.
- Ahhh, sim! Se tiver facilidade para dormir vai ser rápido. Pegou um grosso livro de Shakespeare em inglês, um tablet, e pês-se a fazer anotações.

Ninguém explicava o atraso e algumas pessoas começavam a ir até até fora descobrir o que havia. A preocupação já beirava a aflição e o que - se estivesse com paciência - poderia ser resolvido com meditação e alguns ciclos de respiração consciente, se transformaria em crise de ansiedade brevemente. Abriu a bolsa para pegar o remédio, mas não largava a curiosidade.

- Por que não no tablet ou e-reader e já vai anotando? Não seria mais prático?
- Geralmente é o que faço. (Ajeitou-se na cadeira apertada para olhá-la com atenção) Mas é Shakespeare...edição de aniversário, da primeira edição. E sorriu como se a explicação fosse suficiente para todos os seres do planeta.

Passava de duas horas da madrugada quando o posto rodoviário foi informado sobre fogo na base de um penhasco. O motorista que avisou disse que avistou marcas de pneus no asfalto e ficou atento. As marcas iam para o acostamento. Preocupado, estacionou e olhou para baixo. Os registros dos policiais apontaram para o ônibus que atrasou a saída no destino. Receberam imediatamente as informações para identificação do veículo. Receberam a lista de passageiros, mas nem todos nomes eram identificados.

- Alô? Quem é?
- Boa noite, senhora. É da residência da Senhora Elice Galvez?
-...Gonçalves. E desligou.

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