sexta-feira, 14 de março de 2014

Sobre mudanças

        "No vale das árvores secas, 

      Descansa minh'alma, 

      Tão seca quanto ao vale, 

         Que repousa nesta calma..."

          Marcelo H. Zacarelli - Do poema: Vale das Árvores Secas


Marido e eu separados. Filha comigo, nós em casa de minha mãe. Ele na casa de sua mãe enquanto se organiza para requerer a guarda da pequena. Não, não temo essa perda. Nem um pouco. Isso não vai acontecer. Por quê? Porque quando eu era bem pequena e chorava a falta do meu falecido pai minha mãe dizia: "Olhe, Deus precisou dele e não ia te deixar sozinha, então ficou tomando conta de você. Você imagina o que é ser cuidada pessoalmente por Deus?!" Jura que vai ser agora que ele vai farrapar.
Não consigo arrumar o apartamento. Nem desarrumar. A geladeira queimou. No exato dia em que saímos de casa. Marina não tem com quem ficar enquanto vou trabalhar, não temos babá ou empregada ou parente próxim@ e não pretendo colocá-la em escola de tempo integral. Aliás, saiu da escola na qual estudava.
Quando sente saudades do pai, eu ligo para ele e se ela quiser e ele puder, vem buscá-la.
Sessões de psicoterapia + conversas com amigos + sessão de Reiki com uma reikiana que adoro + auto-aplicações de Reiki + muita oração + algum choro + 1 dia de cada vez + 4 dias de licença médica por estar chorando descontroladamente no único dia em que precisei ir trabalhar e deixá-la com uma amiga que mora perto de nós = primeira sexta-feira equilibrada pós-separação.
Foi antes do Carnaval. Perdi os 3 quilos que queria e não consigo lembrar qual era a utilidade disso mas se eu for entrevistada e quiser não aparecer na TV é só eu dizer: 
"Ah, perdi 3 Kg em duas semanas! E continuo perdendo"
"Como!? Usando o produto dbfjgerfguercg? Ou a dieta chfiuwe?"
"Que nada, é só sofrer, não conseguir pensar, não conseguir andar em linha reta, não dormir direito, aí a fome vai embora rapidinho..." Quem quer saber de sofrimento? Só os Datenas da vida!
É claro que estou melhor, sim, e é por isso que estou escrevendo. 
E virão fases melhores e piores, como houve antes. Porque a vida é assim. Mas decidi uma coisa diante dos inúmeros problemas que surgiram...porque não foram poucos, não. Tentava achar a solução, pedia ajuda, realmente não encontrávamos. Jogava pra cima! "Segura, Deus!" Posso fazer nada, então vou ficar chorando? Me debatendo? Enfraquecendo e adoecendo ainda mais se eu sei que as coisas podem vir a piorar e exigir de mim ainda mais energia?!

Um dia desses me falaram que a gente tende a achar que nosso sofrimento é maior do que o dos outros. Eu gostaria muito de saber quem foi o inventor dessa célebre e genial frase e também de conhecer quem faz isso. Tudo bem, eu sei que gente doente faz isso, mas estou falando de pessoas quase não doentes.

Exemplo: desde que separamos uma figura me liga todo dia. Sabe que não assisto TV. Me coloca a par de todas as desgraças do mundo. Termina dizendo: "Tá vendo, meu amor, a gente sempre pensa que nossos problemas são os piores." Eu respondo (sim, é uma idosa) "Eu não penso não, é só pensar na senhora que eu já acho alguém bem pior que eu!". Ela é incansável, mas eu não ligo porque sei que ela acredita que está me ajudando, acredita que preciso "mudar de foco".

O absurdo foi eu ter ouvido isso duma pessoa da minha idade e mega-inteligente. Respondi, exausta:
"Rapaz, eu já passei fome, já faço trabalho voluntário há tanto tempo, já trabalhei com tantos grupos sofridos e miseráveis e uma coisa que eu aprendi é que a dor do outro não aumenta e nem diminui a minha. O que eu procuro fazer é sentir a minha na medida em que ela É. Sem aumentá-la nem diminui-la, porque sei que uma ou outra coisa vai detonar a minha saúde. Agora, se alguém me conta uma história de uma mulher guerreira, se leio um livro de Isabel Allende isso me tira do chão e saio renovada".

Lembrei de Marisa Monte cantando "Se ela me deixou / a dor é minha só / não é de mais ninguém..." E é bem isso mesmo. Então, gente, vamos aí, sorrindo se estiver feliz, chorando se o babado for outro, indo ao banheiro se a barriga doer e caminha se o soninho chegar.
Presente de findi, a musa... 

4 comentários:

Mariana - viciados em colo disse...

Receba um abraço e todas as boas energias pra passar por isso. Respira...

Luma Rosa disse...

Poxa! Imagino a dor que está sentindo... Seria muito estranho se sentíssemos o que o outro sentisse integralmente. Já pensou, você com a anteninha ligada e como esponjinha sugando as dores e alegrias do mundo? Agora é hora de ser prática e realista, para tomar as medidas certas para ter a sua integridade emocional de volta. Me disseram uma vez que a dor da separação é como a dor do luto e por isso, não a desejo para ninguém. Mas se está feito, o melhor agora é lutar para equilibrar a rotina da Marina e manter o seu trabalho. Eu queria estar pertinho para ajudar!
Força aí, garota!!
Beijus,

Patrícia Gomes disse...

Olá, Mari! Abraço recebido...e foi bem apertado e demorado, chegado em boa hora...

Patrícia Gomes disse...

Luma, querida, meu coraçãozinho esquentou com suas palavras. Amanhã vou me programar para retomar o Pilates, meu corpo precisa de equilíbrio e meus "outros corpos" não estão dando conta dele. Mil beijos E vc está pertinho e está ajudando.