quinta-feira, 18 de julho de 2019

Uma fase é uma fase é uma fase

Imagem daqui

(Se você não veio aqui antes: sofro de Transtorno Bipolar. Assim é mais fácil entender o texto)

Há três semanas estou enfiada numa depressão leve. Porque os médicos chamam "leve" e porque poderia ser muito pior. 
Já passou todo tipo de pensamento por minha cabeça, ruins, péssimos, otimistas, felizes, porque meus sentimentos ficam confusos e o que mais preciso fazer para não piorar é manter a rotina, a mais básica que seja. Tenho várias rotinas, uma simples é a de antes de dormir: lavar o rosto com sabonete líquido, usar adstringente, passar hidratante facial com DMAE. O que acontece se eu não mantiver essa rotina? Vou largar essa, outra, outra e fazer somente o básico para me manter viva. Porque a depressão faz isso comigo, não me deixa mortalmente triste, mas sem energia e sem sono, sem concentração e desanimada, cansada, muda, amargurada. Daí, tudo o que me resta é não fazer nada. meu corpo não quer sair da cama, não quer andar, não quer encontrar outro corpo. Tomar decisões nesse período é quase uma tortura, assim continuar fazer as coisas para manter a casa, as contas, a vida prática, o trabalho, enfim, viver pesa muito!
Daí vou ao médico e ele dobra a dose de antidepressivo e às vezes muda outro remédio. Antes de aceitar o tratamento isso era uma derrota para mim, sempre tinha gosto de retrocesso. E aí? Aí percebi que não é isso, que terei ainda muitas dessas fases, assim como as de hipomania e vou seguir acreditando que encontrarei tratamentos que me deixarão equilibrada por mais tempo.
Sei que não parecem palavras de uma pessoa deprimida - so sorry, baby - é que sou otimista. Sempre. E o melhor momento de exercer o otimismo é durante crises. Sofro de depressão, mas não sou a doença. Isso eu também aprendi com ela. 💖

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Um salto no lago - o outro lado da Crise

Comigo é assim mesmo
Quando digo que estou na crise da meia idade sempre-sempre-sempre perguntam como eu descobri. 
Eu achava que isso era como a menopausa: você tem sinais óbvios de que ela chegou, mas comigo não...descobri porque não estava (estou) conseguindo decidir as roupas que vou usar. Tudo que escolho me faz parecer jovem ou velha demais.
Como eu não sabia direito o que era essa Crise, inclusive achei que passaria incólume pela bendita, fui pesquisar e achei vários textos mezzo vazios, do tipo psicologia de almanaque e alguns vídeos que só me deram a certeza de que é uma questão moderna, não tem a ver com hormônios ou alguma mudança cerebral. Minha explicação pessoal é que algo dentro da gente avisa que "o tempo está chegando" e isso soa um alerta que causa várias reflexões...não sei por que o nome de crise, mas que seja!
É lógico que eu não poderia navegar por duzentos sites sem ver centenas de relações dos tipo 
10 SINAIS DA CRISE DE MEIA IDADE. 
Eu diria apenas um sinal: você sente um monte de coisas e isso pode coincidir ou não com os outros seres da sua espécie.
Senti vergonha de estar vivenciando isso, não me sinto confortável em dar tanta atenção à secura da minha pele, às manchas que surgiram em meu rosto, aos três quilos que ganhei do próprio Demo (só pode!), e se roupa X me torna excessivamente velha ou ridiculamente jovem. Aparentemente é uma crise fuleira essa minha, mas por que será que toda ela está voltada para a minha aparência, algo com o qual - em toda a minha vida - nunca dediquei muito tempo? É nesse lago escuro onde devo mergulhar e transformar o que chamam de crise num momento de reflexão e um belo salto de mudança interior. E exterior, sem dúvida!
Imagem daqui

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Mi casa, su casa

Mi casa, su casa (imagem daqui)


Uma mulher de seus 30 anos me contou sobre um aborto que desejava realizar. Dentre os tantos motivos estava o de que uma gravidez iria “modificar seu corpo”, o que ela não queria de forma alguma. Não se trata de alguém que necessite que o corpo esteja especificamente de algum formato para que possa trabalhar, por exemplo.

E a minha questão é esse corpo. Não é uma questão de agora, é de dezenas de anos.

Que corpo é esse, para que serve, a quem serve, ele deve ter serventia, pessoas devem ter serventia? O corpo feminino, que durante tanto tempo pertenceu a diferentes donos, quando parece retomar a si e poder descansar...continua “servindo”. À vaidade? Ao mercado de trabalho? Aos homens? Aos coletivos de mulheres? Aos olhares alheios?

E o corpo da criança em formação? 
(Durante toda a conversa a mulher falava embrião e eu me referia a seu filho como bebê ou criança.)

A criança fez um longo percurso na história da humanidade para ser reconhecida como sendo diferente do adulto e digno de direitos especiais. Esse percurso, inclusive, continua em lenta construção. Se antes sequer sabíamos que o sexo levava à gravidez, agora chamamos o bebê de embrião e conseguimos aliviar um pouco o peso de enxergar ali um CORPO. Interromper uma gravidez sempre levará a um corpo que deixará de existir. Mesmo que se chame de embrião, feto, problema...

E a minha dúvida cresce ainda mais! Que tão pouco valor esse corpo tem – ainda sem braços e cérebro – que não merece um banho de mar, cócegas na barriga, dormir barriga-com-barriga se tiver cólicas, se reconhecer no pai e na mãe, olhar-se no espelho, descobrir seus dedinhos? E quando coloco o contraponto das estrias ou celulite ou barriga flácida, então a mesma pergunta vale para a mãe: que tão pouco valor tem essa pessoa, que precisa resguardar o que será (caso não morra antes) levado com a velhice?

A impressão que tive é de que a infância, por mais que façamos sua defesa, está muito muito muito desprotegida.

PS.: Não fiz o julgamento moral dessa pessoa, estou falando das reflexões que ecoam dentro de mim e que surgiram após essa conversa.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Depressão natalina



Apesar de sofrer de Transtorno Bipolar e ter sido tratada erradamente como depressiva durante 15 anos nunca estive deprimida POR CAUSA do Natal, mas conheci várias pessoas que diziam se sentir "pra baixo" nessa época e alguns, mais próximos, pediam que nem desejasse felicitações, que só isso já era suficiente para causar mal-estar.
E qual é a reação quase instantânea da família? Querer que a pessoa triste esteja nos festejos, se arrume, fale com todo mundo, coma as maravilhas da Ceia. Beodeos /o\ isso é um circo de horrores para quem está deprimido! É claro que todos querem que essa pessoa melhore e acreditam que a festa o ajude, mas sendo ou não Natal, essa movimentação toda desgasta muito uma pessoa com depressão. Para alguém saudável a energia desprendida é rapidamente reposta pelo corpo, para um deprimido o desgaste é enorme e não há tempo para reposição, pois tudo acontece sem "tempo emocional" para permitir a reposição da energia. Dependendo do grau de depressão o ato de estar deitado, aconchegado, se recuperando de toda a confusão mental que a doença causa pode ser muito mais proveitoso do que ir a uma festa e ter que se recuperar depois. Talvez dois dias de recolhimento representem uma melhora ínfima para quem está de fora, mas já causa um ganho gigante para quem está no olho do furacão. PODE SER, sempre pode ser...porque as pessoas são diferentes e obviamente todas as experiências vividas por ela são diferentes.



O nome do Transtorno de que sofro é Transtorno Afetivo BIPOLAR (TAB), o que para mim é um erro crasso, pois nunca estive apenas em um polo e outro. há nuances entre uma fase e depressão e uma de euforia - termo do qual discordo porque não sinto euforia alguma, o que existe é uma exacerbação de energia.

 E o que fazer quando seu parente quer ficar ficar em casa sozinho enquanto todos irão à festa? É aí onde eu lembro de Bauman e sua ideia de Amor Líquido e de uma mulher que conheci dias atrás.

Ela é mãe de uma criança com necessidades especiais, que estava em seu colo durante nossa conversa. A criança jogou seu brinquedo de borracha uma 839 vezes e a mãe se abaixava e pegava e  entregava e ele jogava de novo sem parar durante uns 15 minutos. Eu não sabia o que fazer, minha vontade era colocar a criança para dormir e abraçar aquela mulher até não poder mais, mas ao mesmo tempo me sentia constrangida em disponibilizar alguma ajuda porque não saberia mesmo o que fazer. Falávamos sobre cinema, paixão em comum, e ela fazia essa manobra toda sem perder o raciocínio. Até que não aguentei e ofereci ajuda, ao que ela respondeu, com o maior sorriso:
- Eu tô acostumada, você não ia aguentar cinco minutos! 
 Imagem daqui
Imagem daqui
Rimos muito e na realidade eu não aguentaria nem dois! Mas por que ela consegue? Por ser mãe? Por ser triatleta? Nada disso. Por amar o amor que ele precisa receber. Por amar um amor especial. E toda pessoa com alguma doença crítica precisa de um amor assim.

O que Bauman diz sobre Amor Líquido, o tipo de amor cultivado atualmente, é que existe Amor enquanto não houver "muito trabalho", enquanto o outro for de fácil convivência...estou simplificando, mas é o que serve para este texto. E o caso é que esse tipo de amor nunca será suficiente se você ama alguém doente, você precisará um pensar um pouco para além do sentir e sei que nessa estrada vocês podem crescer muito!



sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Talvez um gato...um telhado...


Há coisa de uma semana minha filha disse que queria que eu morresse depois dela. Respondi que isso costuma ser o que acontece e perguntei o por quê a ideia:
- Porque eu não quero que você fique nem um minuto sem mim, não quero que sofra por eu ter morrido nem um minutinho da sua vida, aí eu vou logo depois então eu vou sofrer bem pouco.
A morte não costuma ser tabu em nossas conversas, então para mim nada houve de assustador e compreendi sua intenção - e seu amor imenso também.

Ontem recebi alguns exames (realizados pela segunda vez) que apresentam um futuro sombrio e talvez com adeus prematuro para mim.

Sempre pensei que se isso acontecesse eu pensaria logo em minha filha e isso acabaria comigo. Pois não foi o que ocorreu. Pensei e penso quase que exclusivamente na minha mãe e na dor que ela não merece sentir. Se eu pudesse, fingiria ter ido morar em outro país e sustentaria a ideia de ser uma filha desnaturada que nenhuma carta sequer era capaz de escrever para a família. Penso que seria uma dor menor. Também pensei se deveria sair do trabalho e ficar vagabundeando, se deveria ir a Paris (a Montmartre), se se se se...

Montmartre, em Paris

E decidi não mover um dedo além do que é esperado em situação semelhante. Talvez tenha descoberto que estou exatamente onde deveria ou que nada mudará o que vai acontecer, não terei um dia a mais de vida e talvez nenhum dia seja mais prazeroso do que viver a rotina que, quer-queira-quer-não, escolhi para mim.

Indo para casa, ontem, pensei "Meu Deus, mais isso!? Tinha que ser comigo!?" O chavão dos chavões, mas imediatamente (Deus ou) eu me corrigi "E por que não VOCÊ, mocinha?" e a obviedade ganha da idiotice leviana.

Há uma doença, que pode ser fatal. Não sei sobre os tratamentos, pois ainda falta fazer e receber alguns exames. Dificulta meu sono, torna estranho continuar estudando para concurso, mas mais estranho ainda é a absoluta ausência de medo, é a aceitação do que vier, a confiança no meu futuro.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Uma semana depressiva

Imagem daqui

Em primeiro lugar: não use o que lerá a seguir como exemplo, pois cada pessoa é única e bem assim são suas experiências.

Há sete dias estou na fase down do TAB (Transtorno Afetivo Bipolar, ou Transtorno Bipolar). Se houve um motivo, um disparador, um start? Nem sempre há e eu, sinceramente, não tenho muita paciência para ficar analisando isso quando estou no olho do coração. Prefiro manter minha atenção voltada para manter minha rotina e não deixar que a coisa toda atrapalhe minha vida além do que a dor já o faz. Desta vez tive um problema, sim, que é sério e não será resolvido em médio prazo. Ainda não tenho certeza da solução, mas se fosse um vento soprando na direção errada esse também poderia ter sido o "disparador" porque essa doença é assim: + - +/- sem seguir ordem alguma.

Para quem pensa que estou em casa chorando há sete dias, não estou! Estou mais apática do que triste. Estou mais melancólica do que triste. E o que é ser apática? Imagine o seu dia de hoje como sendo o último de sua vida. Pode ser que você saia feito um desesperado fazendo o que reprimiu por toda a vida, porém o mais provável é que sente sozinho num banco de praça ou olhando para o mar e fique lá, pensando em nem sei o quê, só esperando...e, mais importante, sem saber que está esperando. Pois estou em meu sétimo dia assim. Não quero falar com ninguém, não quero alegria nem tristeza, não quero morrer, quero deitar, quero dormir, quero que passe. Enquanto isso vou fazendo feira, fazendo compras, lendo, pagando contas, arrumando a casa, trabalhando, chegando atrasada em todos os compromissos, faltando ao Pilates porque não tenho energia para nada e vendo os vídeos "Assistir mais tarde" do YouTube. E se estou aqui, escrevendo, é um indicativo de estar melhorando. Que bom!

Quando a gente está mal às vezes faz coisas bem idiotas, como pedir ajuda a pessoas que vão responder:
- Pare de pensar nisso! (E eu: Isso o quê? Não tô pensando nada!)
- Você tá tomando o remédio direito? Por quê não tá na terapia? Saia de casa, vá à praia! E a sua filha, pense nela!
- (...)
- Eu queria muito poder ajudar (Mas não faz aquela pergunta tão comum nos filmes americanos "How can I help you?)
- É foda...

Até que uma das amigas FAZ efetivamente algo para te ajudar e isso funciona como um banho de cachoeira após 3 horas de trilha! Ela fica do teu lado sem te colocar no colocar no colo porque não é disso que você precisa. Eu precisava, quando cheguei à cachoeira, ser acolhida, compreendida, que alguém percebesse que eu tinha um problema real ali além da doença e que eu não estava conseguindo pensar sozinha.

Longe de mim ser uma sofredora silenciosa. Sou geminiana legítima e com Mercúrio em casa, então Comunicação é meu sobrenome. Fico pensando, no entanto, nas pessoas que sofrem sozinhas, que diante da dor, da apatia, da vontade de não falar nada, ficam mesmo silenciosas e são passadas despercebidas. 

Eu quero muito, muito, muito, criar um Grupo de Apoio aos portadores de TAB em Maceió. E para isso precisarei de uma equipe, com a doação pessoal de cada um, pois não será uma tarefa fácil. Nada fácil, mas extremamente necessária.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Saudades de mim


Se alguém, 
em qualquer época da minha vida, 
desde quando a memória me permite relembrar, 
perguntasse o que mais me dava prazer ... a resposta seria LER.

Minha mãe não entendia por que perder o cinema com os colegas se, quando eu voltasse à casa, o livro estaria lá, prontinho para ser continuado. A única vez que cedi a esse argumento foi para comprovar sua invalidade, pois o tempo todo em que estive distante do livro "que estaria lá" não parei de pensar nele e não aproveitei em nada o que para os demais era diversão. Aprendi, bem cedo, que ser autêntica dispende menos energia do que fazer parte do que não tem a ver comigo.

No decorrer dos anos participei de diversos trabalhos voluntários, sendo alguns com deficientes físicos. Apesar de ouvir especialistas dizerem que a deficiência que mais deixa a pessoa desconectada do mundo é a surdez sempre pensava como seria terrível ser cega. Era coisa de adolescente, aquele medo infundado pelo qual todos devem passar em algum momento da vida: perder os pais, não passar no vestibular, não casar, eu temia deixar de ler.

As artes, de modo geral, me preenchem de experiências singulares que não posso cogitar vivenciar de outra forma. Ouvir música! Ouvi apresentações de duas grandes orquestras nacionais e uma internacional, amo tango, choro absurdamente com corais. Mas perdi parte da audição. Ainda ouço, mas sinto que escapa-me algo, há uma vaga sombra de nota entre uma frase musical e outra, canções mais delicadas pedem meus olhos cerrados para aumentar a atenção, o grunge do Nirvana por vezes começa como barulho até que o som surja em mim como talvez seja realmente. Tudo agora, em termos de música, é suspeição.

Enxergo. Tanto quanto no tempo do medo tolo. A leitura, no entanto, quase não existe mais. Talvez por conta dos remédios para controle da bipolaridade ou mesmo pela doença ... não consigo me deter em um parágrafo sem retomá-lo várias e várias vezes. Enfiar-me mar adentro, nadar como se fosse uma arraia prateada, entregar-me a uma história com a confiança de uma criança que gira e gira e gira em torno de si mesma com os braços abertos, isso agora é apenas descrição. O tanto que ganhei quando descobri a literatura perdi aos poucos e perder me parece - desde que me percebi mais pobre - muito pior do que já ter possuído fortuna imensa! Tenho agora o que chamam de membro-fantasma: perdi a literatura, mas continuo a senti-la. Esse sentimento, que poderia ser ao menos uma boa recordação, é mais que tudo dor e frustração. Causa tristeza, raiva, medo, saudade. 

Tenho em mim todos os livros que li, converso com todos os autores que conheci, mas é um mundo mofado e repetitivo, caduco e desbotado, infinito e castrado de novidade. Há nele uma janela sem imagens, por onde passo a cabeça a sentir a brisa e um cheiro bom que conheço desde sempre, dizem que é o cheiro que os livros têm, mas não! É o cheiro que a Vida tem! Essa mesma que já não enxergo, mesmo tendo visão. Essa que não mais pulsa, clama.

terça-feira, 14 de março de 2017

Moana voltou!

Moana, o filme
Assistimos a esse filme num dia muito especial. Nele, fui dar uma aula a convite de um amigo e utilizei um desenho animado. Após essa aula Marina e eu fomos assistir ao Moana e algumas horas depois ao A Bailarina. Tínhamos assistido a três filmes em locais diferentes no mesmo dia e minha filhota estava extasiada com tamanha aventura!

Começamos a análise de qual era melhor em quê. No final das contas, três dias depois, Moana ganhou.

Moana é destemida
            começa com M
            adora o mar, 
            ouve o mar chamá-la
            é morena
            gosta de história antigas
            ama sua família
            é obediente (até onde consegue)
            é corajosa, sente medo, chora, desiste, resiste, existe!
 
Ela e a amiga dividem o "colar da amizade"
Marina chegou em casa com um adesivo de Moana, que ganhou de sua melhor amiga. 
- Mãe, ele tem que ficar perto da gente, à noite, igual ao Ginble (ursinha que dorme numa caminha ao lado da bicama.
Eu, cá em minhas orações _/\_ "Na parede, não! Na parede, não!". 

- Mãe! - os olhos brilhando de extrema felicidade! - Aqui! Posso colar na sua cama? Porque aí fica todo mundo junto, na sequência: você, Moana, eu e a Ginble!
- Pode, pode colocar.

E assim foi que começamos a dormir juntas, as quatro.

No último Carnaval cedi nosso apartamento para uma prima, seu marido e dois filhos (meninos) ficarem, já que estaríamos fora. Troquei todos os lençóis cor-de-rosa e até comentei com o pai dos meninos que fiz isso porque alguns coleguinhas da Marina chegam ao cúmulo de não lanchar quando o iogurte é de morango porque é cor-de-rosa! O pai, que já serviu ao exército, disse que lá não tem disso, não, que é besteira demais.

Passou o Carnaval e retornamos para casa.
- Mãe! Mããããe! Arrancaram a Moana!

Eu estava na sala, tentando arrumar nossas tralhas e lembro de ter pensado se eu teria arrancado ("Não, eu não faria isso") ou se teria descolado um pouco. Fui até o quarto e o adesivo estava totalmente retirado. Olhei todos os demais cômodos para ver se algo mais estava diferente. Nada. Nada além da tristeza e indignação da minha filha, nada além da palavra misoginia que não saía da minha cabeça.

- Mãe, fale com a mãe deles, ela é sua prima, isso não se faz, oxe! Ela não tava mexendo com ninguém! E a casa nem é deles!
- Eu sei, Marina, você está certa, vou falar depois.

Várias vezes no dia minha filha perguntou "Já falou? O que ela disse?" e no final do dia resolvi retomar o assunto, antes de dormir. Só Deus e meu estômago sabem a raiva que eu estava sentindo com o que eu considerava falta de respeito + vandalismo caseiro + misoginia pulsante.
- Olhe, quando uma coisa assim acontece com a gente...a gente precisa aprender alguma coisa com ela. Você não ficou triste e com raiva? Se a gente não aprender nada, só vai desperdiçar ainda mais os minutos de vida que a gente tem. Vamos pensar e cada uma diz uma coisa que aprendeu. Achei que ela realmente fosse pensar, mas mal fechei a boca e a resposta veio
- Aprendi a nunca mais emprestar minha casa - putz, que vontade de rir!
- Isso não vale. A responsabilidade pela casa é minha, tem que ser uma coisa tua, que mudou dentro de você, que você aprendeu, que vai usar de novo de um jeito bom. - Respirei fundo! - Vamo lá... eu, por exemplo...(pausa gigante)...aprendi que quando estiver com raiva não devo falar com a pessoa que me deixou assim, senão pode sair muita besteira, por isso não falei com a prima ainda.
- Mãe...
- Oi...
- Só consigo pensar que não quero eles aqui e não quero outra Moana porque nenhuma vai ser ela.
- Tem razão, meu amor, nenhuma vai ser ela.
 
Moana refeita
No dia seguinte encontramos os pedacinhos do adesivo pelo chão do quarto, debaixo dos móveis e Marina foi montando a boneca com uma paciência que eu nunca pensei que ela fosse capaz.

Cerca de 10 dias depois Marina me pergunta
- Mãe, ainda tá com raiva da tua prima?
-...não...
- Então pronto, manda a mensagem dizendo o que os filhos dela fizeram e diz que não venham mais aqui.
- Marina, eu vou mandar a mensagem porque acho que ela deve saber, mas quanto a não vir mais aqui é uma decisão minha.

Por mais que eu pense, não consigo entender. Um garoto de 9 anos e outro de doze! Numa casa que não é a deles, no quarto que lhes foi cedido pela menina com quem brincaram e riram até a hora da despedida, uma menina que não conheciam e por quem não nutriam qualquer sentimento. Acontece que aquele quarto daquela menina, a partir do momento que passou a ser deles, passou a ter lei: nenhuma menina entra. Principalmente uma Moana!

E justamente por seu quem é, ela foi refeita e continua conosco. Ainda não falei com a mãe dos meninos e meu intuito é o de deixá-la ciente do que houve, cabe a ela e o marido decidirem o que fazer. Estou calma para escrever, mas se for falar...afff...não tem peneira que segure!


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Como você engole a vida?

Balas Soft
Quando era criança morava num bairro onde tinha “mais criança do que gente”, como dizia minha avó.

Todos sabemos que a criatividade de uma criança sem muitos recursos externos é imensa quando outros fatores de sua vida são positivos. Pois lá entre nós as brincadeiras brotavam feito capim.

Uma delas sempre me põe um sorriso no rosto. Era assim...

Juntávamos moedas e mais moedas. Marcávamos o dia e a hora. Chegávamos à venda da Dona Maria e todo mundo sacava as “pratas”, que explodiam no balcão ao mesmo tempo. O balcão de madeira fofa, já pintado tantas vezes e de tantas cores – eu mesma já o pintei de verde – nem permitia que as moedas saltassem, no máximo algumas caíam no chão ao se chocarem umas às outras. O barulho assustava o papagaio e aborrecia a velha, que falava uns cinco palavrões e perguntava o que a gente queria. Seu mau humor tinha a medida exata da sua ganância, então o tempo que levava para nos odiar era o mesmo que usava para se recompor e procurar simpatia, dentro sabe-se Deus de onde, para nos atender.

A empregada-filha-adotiva começava a contar, sorrindo, enquanto as 8 ou 9 crianças que conseguiram entrar no minúsculo espaço destinado aos clientes apontavam, aos gritos, para o pote de confeito (sim, hoje chama “bala”, mas dizíamos confeito mesmo) Soft e iam pedindo por cores. Sinceramente, era de enlouquecer qualquer um que, como Dona Maria, considerava crianças umas pestes!

Sempre-sempre-sempre havia um bêbado escorado no cantinho do balcão e esse era o principal motivo para irmos em grupo: medo deles. Lembro que minha primeira memória de um homem ali trazia a certeza de que era o mesmo e até cogitei que dormisse ali porque nunca entrei naquele lugar para não o encontrar. Só descobri a verdade quando comentei com minha mãe que Dona Maria morava com um homem e a filha adotiva. Isso aconteceu numa noite em que Dona Maria me pediu emprestada para dormir com ela porque Quitéria precisou viajar – e minha ME emprestou. Assim! Mas eu, finalmente, ia conhecer a venda por dentro, então tive dez minutos para correr para a rua e contar pra todo mundo que no dia seguinte todos saberiam o que havia depois da cortina do corredor.

O caso é que não tinha nada demais. Era uma casa comum, mas com quartos sem portas porque o medo dela era tanto que precisava ficar vendo que a outra pessoa estava na cama. A senhora era gigante de tão gorda e se não fosse isso, dizia, ela, dormiríamos na mesma cama – dei graças a Deus por ela ser obesa, pois só gostava de dormir com minha mãe. Havia, além de seu ronco altíssimo, um relógio antigo daqueles de filme de terror, que ficava batendo os segundos e à meia-noite tocava doze badaladas. Depois de acordar umas trinta vezes entre às 21h e meia-noite desisti de dormir e peguei um dos livros da Quitéria para ler. Sendo mais velha do que todos na rua, estava na “fase” de ler romances do tipo Sabrina, Júlia e Bianca. Odiei. Minha fase de lê-los nunca chegou porque naquele dia saltei direto para as biografias. Após a quarta página não me interessava por nada no livro, nada me causava curiosidade, fosse o enredo, as descrições minuciosas ou o final da história.

Do nada, pensei “Do que será que Dona Maria tem tanto medo?”. Já tinha perguntado à minha mãe, quando chorei, esperneei e gritei que não queria ir e ela, empunhando um chinelo, apelou para minha alma benévola e caridosa. Levantei e fui andar pela casa para encontrar alguma razão para medo além daquele maldito relógio, porque se o problema fosse esse era só se desfazer dele ou pará-lo. Não vi nenhuma baratinha sequer.

Dona Maria tinha medo de “alma”, contou-me pela manhã, quando me fez comer a ração de uma dia inteiro. Nunca vi aquela mulher tão alegre, talvez por eu ser boa múmia, “uma menina boazinha, calminha, ótima companhia”: foi assim que se referiu a mim quando me devolveu e eu entendi de cara que seria novamente recrutada e teria que inventar uma doença até lá.

- Dona Maria, e se aparecer uma “alma”, o que é que a senhora vai fazer?
- Ave Maria, menina, nem diga isso! – Então fazia o sinal da cruz e rezava alguma coisa
- Ô Dona Maria, e eu? O que é que eu vou fazer? Eu só tenho 10 anos.
- Ah, você corre, né, menina? Grita, pede ajuda...

Entendi, eu era a sirene. Eu, a Quitéria e todas as crianças e adultos que dormiram com ela até um dia desses, quando enfartou enquanto dormia, sozinha.
Fachada igual à da Venda da Dona Maria (arquivo pessoal)

Pois há 30 anos, quando estava vivinha, ela fazia questão de saber quantas crianças eram e nos entrega os montinhos de confeitos igualitariamente divididos. A gente sabia que às vezes ela roubava na conta e nos dava a menos, mas também descontávamos depois, de alguma forma, nem que fosse atirando pedras nas portas da venda à tarde quando o sol era muito forte e ela aproveitava para fechar tudo e cochilar.

Com nossos cristais coloridos em mãos começava a disputa. Abríamos a embalagem e o líder do dia gritava JÁ! e todos colocávamos a bala na boca ao mesmo tempo. Ganhava quem passasse mais tempo com ela inteira. Ia ficando fininha, fininha, cada vez mais transparente e era um tal de “mostra tua!” então começava a rodada de apresentar a língua e a situação da balinha.

- PERDEEEEU! KKKKKKKK – Gargalhada geral quando alguém não tinha nada para mostrar.

Sempre tinha o que blefava
                    O que dizia ter mastigado porque queria brincar de outra coisa
                    O que engoliu sem querer (quem nunca?)
                    O que dizia que o seu era menor e por isso derreteu logo
E os finalistas, dentre os quais eu geralmente estava. O medo que eu sentia de falar e quebrar a balinha, o suspense em saber como estava a do oponente, pois às vezes ela quebrava justamente quando íamos mostrar e os testes que eu fazia para saber em que situações ela derretia logo: se eu falasse? Se ficasse calada? Se respirasse pela boca? Se andasse? Nem era tanto uma questão de ser a ganhadora, mas de esticar a brincadeira ao máximo e poder rir mais do que todo mundo. Eu não me importava em perder, mas alguns vizinhos ficavam com tanta raiva que iam para casa!

Tenho um amigo que ama como se estivesse num Campeonato Eterno de Bala Soft. Daí ele ama um bocadinho, depois deixa na geladeira para regenerar ou não derreter. Ama mais um pouco, daí fica de boca aberta para secar a saliva. Não chega a sentir o sabor do amor por muito tempo e já reserva para mais tarde. Talvez tenha medo de sair do jogo, talvez seja medo de perder, talvez não queira ser engolido. Talvez nem seja bala Soft – e ele nem percebeu.



terça-feira, 29 de novembro de 2016

Andares



Passeava a Alma, límpida e leve, alegre e integrada a onde quer que fosse. Planava, vivia, sorria, penava um pouco de vez em quando. Num tropeço que deu ao diminuir a chama do candeeiro de um antigo albergue em Olinda deparou-se com um par de olhos muito atentos! Olhos fitos e brilhantes que pareciam atravessá-la e trazer ao presente todo o seu passado - o que tornou-a ainda mais luminosa.

Ele sorriu. E ela pensou nos tantos romances que sua imortalidade permitiu conhecer e lembrou que quase todos começam com um sorriso e alguma morte acontecia. Sorrisos sempre pedem resposta e quando sorriu de volta sentiu seu pescoço arder e o coração disparar como nunca havia sentido. O rapaz, entretanto, desceu imediatamente por uma ladeira estreita e escura. Ela espiou por alguns segundos e seguiu o próprio caminho, até que o olhar com sorriso entregou-lhe um coco gelado.

"Devo estar parecendo uma alma-penada-incendiando", pensou enquanto saboreava a água e ele confessava não se acostumar com as fitas presentes na arquitetura daquela cidade. Ela agradeceu e falou que precisava ir. Ele assentiu e disse que a esperaria todos os dias até ir embora. "Turista, o moço" pensou a Alma, que até ali vivia solenemente seu destino.

Com o nascer do sol a Alma, que não dorme, já havia provado diversas peles e formas e estaturas e cabelos e roupas e calçados. Pôs-se arrumada e foi fazer seu passeio. Procurava não pensar na promessa do rapaz, mas caso se vissem gostaria de estar mais próxima do mundo dele, já que era a única a poder transitar por ambas as esferas. 

A Alma encantou-se. As pessoas no pátio fotografavam, compravam, comiam, dançavam! Ele, ali por perto, sentado numa calçada com algo na mão, estava alheio a tudo, riscando o chão. Vestia a mesma roupa do dia anterior, por isso foi tão fácil encontrá-lo. Chegando perto, viu de relance o rabisco, mas considerou intimidade demais olhar sem permissão, então ficou apenas esperando. Passaram-se minutos para que terminasse o desenho e levantasse o rosto para olhar o movimento, e cruzou com os sorrisos dela: nos lábios e no olhar. Apontou para o desenho:

- Era o que eu tinha de você...
O desenho: seu sorriso, olhar e coração.

Encontravam-se com frequência e a cada dia a Alma estava diferente. Mudava por fora porque estava mudando por dentro e isso é bem claro e simples para as almas. As flores em seu caminho tinham mais cores e perfume, seu olhar trazia mais luz e o sorriso brando vez por outra tocava uma gargalhada.

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Era desnecessário falar que ele partiria, pois é da vida que os turistas cheguem a esse momento. Até que durante um dia, um dia inteiro, a Alma luziu sozinha. Recolheu do chão algumas folhas e flores, fez uma mandala e ofertou-a a ele, para que fosse seu portão abençoado onde quer que ele estivesse.

Ainda por dois dias escolheu peles e formas e estaturas e cabelos e roupas e calçados e andava pela cidade atenta a movimentos bruscos e sutis, mas ainda mais àquele olhar que conheceu e já não via mais. Despediu-se da fantasia e retomou sua antiga rotina, certa de haver conhecido o Amor e por isso sentia-se imensamente abençoada. 

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Até que num dia sem data encontrou um coco circundado por uma mandala de flores que brotavam ali perto. Era tarde da noite, mas como Almas enxergam bem em qualquer tempo, olhou ao redor detidamente, coração disparado, e foi ao agachar-se para tocar as flores que viu-lhe os pés. Olhou para cima e outra Alma sorria. O olhar de Amor brilhava ainda mais! Ele ajoelhou-se e novamente a serviu com o que beber. Colheu as flores e fez-lhe um buquê com um pedaço de fita perdida dentre outras. 

Levantaram-se dois sóis de felicidade e quando partiram ainda se pôde ouvir:
- Enfim, essas fitas têm serventia.