segunda-feira, 9 de junho de 2014

Fui sexualmente abusada aos 6 anos de idade

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Tinha 6 anos. Minha filha fará essa idade em outubro.
O homem era noivo da minha mãe. Com 6 anos o que sentimos por pessoas do nosso convívio? CONFIANÇA.
Eu dormia no mesmo quarto que minha irmã 2 anos mais nova. Acordei com ele levantando bem levemente minha camisola. Fiquei paralisada, sem saber o que estava acontecendo, meu coração disparou e sabia que era ele por me disse algo e recordo de sua voz, mas não do que disse. Fingi dormir e virei-me de bruços. Esse homem baixou minha calcinha e lambeu meu ânus. Eu disse "Vou fazer xixi" e corri para o banheiro. Minha última lembrança é o barulho da porta se fechando.

Durante cerca de 10 anos tudo isso ficou escondido na minha mente. Nenhum lembrança do ocorrido. Apenas sabia que minha mãe teve um noivo porque um dia disse a ela: "Mãe, ouve esse nome...(e disse o nome completo dele)" Absolutamente nervosa minha mãe perguntou onde tinha ouvido ou lido aquilo e eu disse que simplesmente lembrava, minha tia estava perto e disse que esse tinha sido o único noivo de minha mãe depois que meu pai morreu, quando eu tinha 2 anos de idade. e ela estava grávida de minha irmã.
Indo para a escola comecei a VER em plena luz do dia, acordada, andando, atravessando a rua ou na hora do recreio, flashes do que relatei acima. Contei à minha mãe, que disse ser coisa da minha cabeça. As cenas se encaixavam cada vez mais e o incômodo de não saber algo importante crescia em mim. Sempre fui tímida, extremamente recatada no modo de vestir e se portar. Comecei achar que todas as travações relacionadas ao meu medo de contato poderia ter a ver com "aquilo". Mas o que era "aquilo"?
Era adolescente. Brigava com minha mãe. Aproveitei uma briga homérica e fiz a jogada de mestre: sem qualquer certeza ou piedade disse com toda a raiva do mundo que já sabia de tudo e que ela devia ter feito alguma coisa pra impedir "aquilo".
Eu não sabia de nada, fui levada pela intuição, mas lembro que ela começou a contar a história toda, disse que viu acontecer, o expulsou aos gritos e quebrando tudo nele, prestou queixa na polícia, fugiu conosco do apartamento para que ele não se aproximasse de mim...meu chão? Que chão? Eu soube de partes do quebra-cabeça, aos gritos e lágrimas e ira de ambos os lados. Durante duas décadas não se falou mais nisso.
Comecei a fazer terapia aos 30 anos, quando sofri o primeiro episódio sério de depressão e síndrome de pânico. Não contei nada sobre "aquilo", não achava que fosse importante, mas na verdade me sentia culpada. Afinal, "por que eu e não minha irmã?", "eu confiava nele, ia ser meu pai, eu gostava dele", "acabei com a chance de minha mãe casar de novo". Ela está sozinha até hoje, aos 69 anos.
Estava então casada pela primeira vez e um dia, arrumando as roupas da sobrinha de meu então marido peguei uma camiseta da cor salmon, fina, transparente. A camisola que eu usava no dia era assim. Desfaleci. Acordei amparada por ele e chorando absurdamente, sem conseguir falar nada, até que descansei a cabeça em sua perna e encaracolei-me em posição fetal. Contei o que havia lembrado e resolvi abrir essa porta na terapia.
Muitas pontes e águas debaixo, terapeutas e cidades e remédios depois...

...conheci o trabalho terapêutico de Constelações Familiares. Não vou adicionar links, pois quem precisar receberá de um anjo um mapa com o caminho desenhado.
Participando de Constelações de outras pessoas há mais de um ano, resolvi colocar esse assunto, que até então chamava de "assédio", palavra mais asséptica, leve, que não designaria muita coisa, não me exporia muito nem traria ruídos maiores que silêncios curiosos e/ou desconfiados. Há três meses constelei o assédio e como estou em terapia com a mesma psicóloga que realiza do trabalho, encerramos o caso em consultório.
E por que estou trazendo isto à tona, loga agora que estou bem?
1. Por estar bem e conseguir falar a respeito;
2. Porque há uma grande mobilização para que os casos de abuso sexual seja denunciado (disque 100);
3. Porque a prefeitura de Curitiba lançou uma campanha para a criança se defender.
Só sei de mim, e sei que não entendi que o que aquele homem colocou em mim foi sua língua, não sabia que era sexo, que "não podia", só senti nojo, MEDO-ACIMA-DE-TUDO; e sei que não discaria *100 porque morreria de vergonha (ele viu minha genitália!), não disse nada à minha mãe. Não! EU, aos 6 anos de idade, não ME defenderia. Eu FUI defendida por minha mãe e mesmo assim, somente beirando os 42 anos consegui desenhar uma flor de lótus em cima da cicatriz que esteve ali desde então.
4. Porque muita gente acha que se não houve penetração (do corpo), se resta o hímen, não haverá maiores estragos. 
Desde aquele momento o que houve de mais intacto em mim ... foi o meu corpo.

Estejam à vontade para compartilhar se o objetivo for sensibilizar as pessoas a olharem para TODAS as crianças com cuidado. Não somente as de nossa casa ou família, mas as vizinhas, coleguinhas de nossas crias, moradoras de rua. E você, adulto, DISQUE 100 porque não estou certo de que a criança conseguirá fazê-lo.
_/\_ GRATIDÃO eterna às psicólogas que me acompanharam, Katiana e Niedja, ao Instituto Holístico e aos seres iluminados que participaram de minha Constelação;
_/\_ REVERÊNCIA à minha mãe e a todas as mulheres que me antecederam em minha família, e que - hoje sei - sempre me sustentaram.

(Não à toa o "marcador" ou "tag" escolhido para esta postagem foi POR UM MUNDO MELHOR. #pensenisso

10 comentários:

Strela do Mar disse...

Forte!
Estou a pensar nas crianças que não tiveram suas mães presentes... Ou que, se tiveram, ficaram desacreditadas e optaram pelo perdão ao "deslize" cometido...
Parabéns pela feliz superação!
Parabéns para a atitude plausível desta Mãe.

Strela do Mar disse...

Parabéns pela feliz superação!
Parabéns pela atitude plausível desta Mãe.

ana disse...

Que forte, amiga... Forte a história, forte você por conviver com ela e hoje poder entendê-la. E poder entender-se.
Pensamos muitas vezes que a força está em não derramar uma lágrima, em não se queixar, em não sofrer. Mas a força está mesmo em encarar as próprias dores, em não negá-las, em reconhecê-las legítimas. Só os fortes se permitem chorar. E depois de chorar o necessário, emergirem fortalecidos.

Drê disse...

Sempre trazendo a lembrança de que somos frágeis, mas que isso não impede-nos de viver em plenitude, atrás da força que nos move. Namastê, querida.

Maeve Vida disse...

Admiro sua coragem em contar e acredito que a força da Verdade é o que fará diferença para vencermos as sombras desse mundo em que vivemos.
A questão dos abusos sexuais com crianças tem estado por "debaixo do pano" da sociedade, por medo, vergonha, nojo, rejeição...
Colocar luz sobre o tema pode fazer com que ele saia da escuridão que tem permanecido, faça com que as mães redobrem o cuidado com seus filhos e que possamos amadurecer e enfrentar o problema na dimensão grave que ele acontece.
Muita luz e força para você, Patricia.
Com amor e gratidão pela coragem,
Maeve Vida

Paulo Caldas disse...

se as pessoas tivessem noção do estrago que faz na vida de alguém com uma atitude dessas, certamente não fariam.
eu venho acompanhando esse processo que se deu na vida dessa pessoa, uma vez que estivemos casados por sete anos.
É admirável a atitude de não querer e não aceitar a situação em si e nos outros e durante o tempo em que estivemos juntos vi essa pessoa lutar bravamente para negar que tal mácula estivesse impregnada em sua vida. a mácula existe, mas não em você e sim na alma de quem lhe assediou.
eu e marina estamos aqui para lhe apoiar e dizer que vc é grande!

Paulo Caldas disse...

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=564401070273220&set=pcb.564401963606464&type=1&theater

GUERREIRA MENINA

Katiana Lima disse...

PARABÉNS PATRICIA...FICO MUITO FELIZ PELA TRANSFORMAÇÃO EM SUA VIDA E PELA CORAGEM!!!! SÓ ACREDITO NA TRANSFORMAÇÃO DE ALGUMA COISA QUANDO ELAS SÃO REVELADAS E ENCARADAS DE FRENTE...QUE BOM QUE VC PODE VIVENCIAR DE MODO TERAPÊUTICO E TRANSFORMAR ESSE FATO EM SUA VIDA...UM BEIJO RECHEADO DE CARINHO, KATIANA

Roseane Correia disse...

Sei muito bem como é passar por isso pq eu também já tive uma experiência assim é um trauma que carregamos pelo resto da vida, mas que superamos eu tinha só 12 anos. Eu também sou mãe e os cuidados são em dobro.

Unknown disse...

Parabéns pela coragem, mulher linda e lutadora!!!! Sua história ajuda muitos.