sábado, 6 de dezembro de 2008

MEUS PEITOS NA BOCA DO POVO


Sim, sei, trocadilho. Deve haver coisas mais irritantes que trocadilhos e mais pobres também, por isso vou deixar o título assim mesmo e assumir a pobreza que às vezes aflora em mim.

E por falar nisso...há alguns meses assisti ao programa domingueiro Fantástico e reparei na quantidade de trocadilhos que fazem ali. Vi isso também no Jornal Hoje e no Globo Esporte. Bom...mas não era sobre esse assunto que eu ia falar, deixa eu retomar o prumo.

MEUS seios. Meus peitos. A cozinha da Marina, segundo meu amado Paulo. Estou eu, feliz e dolorida no primeiro dia de pós-parto e alguém me chama para amamentar Marina, que está na UTI por ter nascido prematuramente. Seus pulmões precisam de estímulo e ela sairá assim que conseguir mamar. Aí entro eu. Eu e eles.

Foi a primeira vez que a encontrei e não foi a melhor das visões, mas só pensei assim ao olhar as fotos porque na hora achei que ela estava na melhor as instalações na pose mais linda do mundo! Só que eu tinha ido lá para AMAMENTAR e não para ficar alisando, chorando, acariciando, sorrindo, nada disso, eu teria os 4 meses da licença-maternidade para fazer isso. A missão ali era outra, "Vamos lá, seja centrada, você é pragmática, consegue!" era isso que eu dizia a mim mesma quando colocaram Marina em meus braços e ficaram ao meu redor observando minha des-desenvoltura e perguntando "É o primeiro?"
ALERTA: "É O PRIMEIRO?" SIGNIFICA QUE ACHAM QUE VOCÊ ESTÁ COM ATAQUE DE FRESCURA OU ESTÁ FAZENDO TUDO ERRADO! VOCÊ OUVE ISSO DURANTE A GRAVIDEZ E ATÉ TER O SEGUNDO FILHO

Desinfetei mãos e braços e peguei meu bebê. Que pele fininha, nem parecia real...
..."Ei, mãezinha, segura assim - isso - esse braço assim - peraí - o peito assim - acorda ela senão ela não mama e não pode sair daqui." ...sentiu a pressão????...
Dali a pouco passa outra enfermeira e dá palpite no que vê, mete a mão no meu peito, fala do bico, chama outra ! e faz um comentário. As acompanhantes de outros internos viram a cabeça para ver os meus peitos.

MEUS...até ali eram meus, eu tinha certeza, pois mostrava quando queria, falava neles se quisesse também, tinha sobre eles total domínio e autonomia, mas começava a desconfiar que meu reinado estava ruindo.

Minha gatinha, acostumada ao conforto do fast food umbilical não queria saber de sugar, então ficamos na maternidade durante quatro dias e nesse período não houve uma visita, enfermeira, médica, pediatra, auxiliar de enfermagem que não falasse, olhasse, perguntasse e palpitasse algo sobre meus seios ou contasse histórias de peitos, sempre com finais trágicos. Aliás, alguém sempre conhece alguém que sangrou amamentando, mas tem que divulgar isso quando a gente acabou de parir?
Então, entendi que seria difícil mantê-los no antigo anonimato.

Fora do hospital, ao contrário do que eu esperava, esse ainda era o assunto preferido, depois da Marina. Num sábado Paulo foi jogar futebol com sua família e voltou contando das conversas-do-racha, falando que Marina era o assunto central, que o irmãO dele - meu cunhadO - havia perguntado "E a Patrícia, tem leite?" Foi o fim! Meus peitos num fim de racha sábado à tarde é a total perda de autonomia sobre eles, não havia mais nada a esperar.

Atualmente, quando Paulo ou minha mãe tentam fazer Marina parar de chorar e nada dá certo, viram-se para mim e dizem "Patrícia, deve ser fome..." eu não sinto mais vontade de matar, nem de morrer. Entendo que é só uma fase. Para todos nós. Eu, Marina, Paulo, mãinha e MEUS peitos.

Um comentário:

Marina disse...

Muito interessante, você escreve muito bem, Patrícia! Você é cômica!