terça-feira, 29 de novembro de 2016

Andares



Passeava a Alma, límpida e leve, alegre e integrada a onde quer que fosse. Planava, vivia, sorria, penava um pouco de vez em quando. Num tropeço que deu ao diminuir a chama do candeeiro de um antigo albergue em Olinda deparou-se com um par de olhos muito atentos! Olhos fitos e brilhantes que pareciam atravessá-la e trazer ao presente todo o seu passado - o que tornou-a ainda mais luminosa.

Ele sorriu. E ela pensou nos tantos romances que sua imortalidade permitiu conhecer e lembrou que quase todos começam com um sorriso e alguma morte acontecia. Sorrisos sempre pedem resposta e quando sorriu de volta sentiu seu pescoço arder e o coração disparar como nunca havia sentido. O rapaz, entretanto, desceu imediatamente por uma ladeira estreita e escura. Ela espiou por alguns segundos e seguiu o próprio caminho, até que o olhar com sorriso entregou-lhe um coco gelado.

"Devo estar parecendo uma alma-penada-incendiando", pensou enquanto saboreava a água e ele confessava não se acostumar com as fitas presentes na arquitetura daquela cidade. Ela agradeceu e falou que precisava ir. Ele assentiu e disse que a esperaria todos os dias até ir embora. "Turista, o moço" pensou a Alma, que até ali vivia solenemente seu destino.

Com o nascer do sol a Alma, que não dorme, já havia provado diversas peles e formas e estaturas e cabelos e roupas e calçados. Pôs-se arrumada e foi fazer seu passeio. Procurava não pensar na promessa do rapaz, mas caso se vissem gostaria de estar mais próxima do mundo dele, já que era a única a poder transitar por ambas as esferas. 

A Alma encantou-se. As pessoas no pátio fotografavam, compravam, comiam, dançavam! Ele, ali por perto, sentado numa calçada com algo na mão, estava alheio a tudo, riscando o chão. Vestia a mesma roupa do dia anterior, por isso foi tão fácil encontrá-lo. Chegando perto, viu de relance o rabisco, mas considerou intimidade demais olhar sem permissão, então ficou apenas esperando. Passaram-se minutos para que terminasse o desenho e levantasse o rosto para olhar o movimento, e cruzou com os sorrisos dela: nos lábios e no olhar. Apontou para o desenho:

- Era o que eu tinha de você...
O desenho: seu sorriso, olhar e coração.

Encontravam-se com frequência e a cada dia a Alma estava diferente. Mudava por fora porque estava mudando por dentro e isso é bem claro e simples para as almas. As flores em seu caminho tinham mais cores e perfume, seu olhar trazia mais luz e o sorriso brando vez por outra tocava uma gargalhada.

Imagem daqui
Era desnecessário falar que ele partiria, pois é da vida que os turistas cheguem a esse momento. Até que durante um dia, um dia inteiro, a Alma luziu sozinha. Recolheu do chão algumas folhas e flores, fez uma mandala e ofertou-a a ele, para que fosse seu portão abençoado onde quer que ele estivesse.

Ainda por dois dias escolheu peles e formas e estaturas e cabelos e roupas e calçados e andava pela cidade atenta a movimentos bruscos e sutis, mas ainda mais àquele olhar que conheceu e já não via mais. Despediu-se da fantasia e retomou sua antiga rotina, certa de haver conhecido o Amor e por isso sentia-se imensamente abençoada. 

Imagem daqui
Até que num dia sem data encontrou um coco circundado por uma mandala de flores que brotavam ali perto. Era tarde da noite, mas como Almas enxergam bem em qualquer tempo, olhou ao redor detidamente, coração disparado, e foi ao agachar-se para tocar as flores que viu-lhe os pés. Olhou para cima e outra Alma sorria. O olhar de Amor brilhava ainda mais! Ele ajoelhou-se e novamente a serviu com o que beber. Colheu as flores e fez-lhe um buquê com um pedaço de fita perdida dentre outras. 

Levantaram-se dois sóis de felicidade e quando partiram ainda se pôde ouvir:
- Enfim, essas fitas têm serventia.

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