sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Talvez um gato...um telhado...


Há coisa de uma semana minha filha disse que queria que eu morresse depois dela. Respondi que isso costuma ser o que acontece e perguntei por que a ideia:
- Porque eu não quero que você fiquei nem um minuto sem mim, não quero que sofra por eu ter morrido nem um minutinho da sua vida, aí eu vou logo depois então eu vou sofrer bem pouco.
A morte não costuma ser tabu em nossas conversas, então para mim nada houve de assustador e compreendi sua intenção - e seu amor imenso também.

Ontem recebi alguns exames (realizados pela segunda vez) que apresentam um futuro sombrio e talvez com adeus prematuro para mim.

Sempre pensei que se isso acontecesse eu pensaria logo em minha filha e isso acabaria comigo. Pois não foi o que ocorreu. Pensei e penso quase que exclusivamente na minha mãe e na dor que ela não merece sentir. Se eu pudesse, fingiria ter ido morar em outro país e sustentaria a ideia de ser uma filha desnaturada que nenhuma carta sequer era capaz de escrever para a família. Penso que seria uma dor menor. Também pensei se deveria sair do trabalho e ficar vagabundeando, se deveria ir a Paris (a Montmartre), se se se se...

Montmartre, em Paris

E decidi não mover um dedo além do que é esperado em situação semelhante. Talvez tenha descoberto que estou exatamente onde deveria ou que nada mudará o que vai acontecer, não terei um dia a mais de vida e talvez nenhum dia seja mais prazeroso do que viver a rotina que, quer-queira-quer-não, escolhi para mim.

Indo para casa, ontem, pensei "Meu Deus, mais isso!? Tinha que ser comigo!?" O chavão dos chavões, mas imediatamente (Deus ou) eu me corrigi "E por que não VOCÊ, mocinha?" e a obviedade ganha da idiotice leviana.

Há uma doença, que pode ser fatal. Não sei sobre os tratamentos, pois ainda falta fazer e receber alguns exames. Dificulta meu sono, torna estranho continuar estudando para concurso, mas mais estranho ainda é a absoluta ausência de medo, é a aceitação do que vier, a confiança no meu futuro.

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