quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Reflexões à beira da morte

            Cada pessoa deve ter desejos muito pessoais ao saber que a morte está vindo, que a cada hora passada ela está mais próxima.*

Sinto a morte em meu chacra cardíaco, sinto a morte pesando em meu coração e como dizem que ela é algo bom, que sua proximidade dá uma imensa paz...devo crer que ou não está suficientemente perto ou estou demasiado apegada à Terra, pois não sinto nada de bom.
Voltando aos meus desejos de moribunda, sinto vontade de escrever aos que me amam. Percebo então que, convenientemente, são os mesmo a quem amo, poupando-me a dor de não poder retribuir o amor a mim ofertado e nem amar a alguém que não me dá a mínima ("Mínima o quê, mãe?" posso ouvir Marina perguntando se soubesse ler ou eu estivesse pensando em voz alta "Mínima atenção, Marina").
A carta é a atenção que dou aos meus amores em meu leito (sim, estou na cama) de morte. O conteúdo, aqui e ali, poderá não agradar muito e preciso cuidar bem disto porque ninguém quer ter raiva de morto, além do mais não desejo colocar mais esse peso à vida de quem quer que seja.

Ao tempo em que não sinto ânimo para sair de casa e nem de fazer qualquer coisa - além de escrever ou assistir a algum bom filme inédito - gostaria de não estar aqui. As paredes do apartamento se diluem e resta apenas um quadrado. Toda vez que tiro os olhos do papel, o quadrado está menor, as paredes mais próximas de mim, como se a qualquer momento eu vá ficar trancada numa caixa de fósforos.
        A Morte tem disso, é piegas. Não sabe se recriar, não cuida em trazer novidade, não tem a menor vaidade em transformar "a passagem" daquele ser humano único em A MORTE! Cá estou, sendo achatada em meu apartamento numa imitação fuleira de Alice no País das Maravilhas. Por outro lado, pensando melhor, a Morte pode ser bem sádica, pois escolheu uma obra que detesto, um livro que conseguiu não me agradar em absolutamente nada!

Possivelmente estou numa crise pesada de ansiedade ou síndrome do pânico ou algo que o valha. Ontem amaldiçoei tudo o que pude (exceto pessoas) e depois fui faxinar e arrumar a casa para receber o ano que não queria que chegasse.
O pior de tudo é que as cartas não trarão maiores surpresas, nada que eu já não tenha dito, gritado, beijado, escrito. A última carta é a última fala e não seria interessante se cada pessoa quisesse esconder-lhe o conteúdo por haver a revelação de algum segredo ou o partilhar de sentimentos infames?! (A Morte agora ri de minha "pouca criatividade". "Acontece, D. Morte, que o meu momento é de sinceridade e não de criação.")
É que vou morrer bem quando estava adotando o fukc you way of life. Antes dele eu era sincera porque acreditava que 1º Era obrigação; 2º Faria diferença na vida de todos; 3º O outro merecia a consideração da minha sinceridade. Resultado? Quem não gostou, se foi e quem gostou ou aceitou já sabe o que penso e agora cá estou tentando fazer cartas de adeus interessantes e simplesmente não consigo. 
A morte da minha honra de missivista será, durante meu enterro, "ver" meus amados trocando as cartas entre si, sem nenhum pudor - ou maldade, é claro - mas de tão vulgares que são, poderão ser lidas assim...como quem troca figurinha ou papel de carta.

Finalmente, talvez a Morte seja então de uma sutileza fina, de um humor elegante e maquiavélico. Se assim for, tem minha profunda admiração, pois além de ganhar sempre ainda termina a partida tomando chá e sequer se dá ao trabalho de anunciar o xeque-mate.

* NOTA PARA QUEM NÃO ACOMPANHA O BLOG: estou em tratamento de um episódio depressivo. Desde o dia 30 tenho descido a ladeira, que pretendo subir em breve. ISTO NÃO É UMA CARTA SUICIDA! Ficarei grata se considerarem literatura hiper-realista.

4 comentários:

Luma Rosa disse...

Oi, Patrícia!
A época do final de ano causa depressão em todos, mesmo aqueles que acham que não. Imagino que para quem tem episódios da "verdadeira depressão" esse período possa ser mesmo de grande sobrecarga. O mais engraçado é que no mês de dezembro, o texto do blogue que foi mais acessado e que comprova o que mencionei acima foi: "Fim de ano: Epidemia de solidão".
A sensação de opressão - as paredes se aproximando, nunca senti. Mas a sua afirmativa de que a cada hora passada, a morte esteja mais próxima é uma constante em minha vida. O medo da morte é o medo de viver, é o medo de sair do casulo e enfrentar o dia a dia. Como criar coragem para enfrentar o medo quando estamos atados em pensamentos de clausura? Tenho certeza de que está tomando providências... Quem sabe uma carta para você mesma relatando não a mágoa, mas todas as alegrias que a vida já lhe proporcionou?
Beijo grande! Sua carta não chegou pra mim... Isso quer dizer que não sou importante na sua vida... :D
Cuide-se, heim?
Beijus,

Luma Rosa disse...

Esqueci de comentar que adorei o novo layout do blogue, seu novo avatar e seu sorriso... :)
+ Beijus,

Ana disse...

Caramba, posso dizer que muitas vezes me senti assim, como em frente a um precipício, um buraco desanimador das emoções.. é quase como sentir a morte te abraçando, querendo-a consumir. Só nunca deixe que isso aconteça, apesar da morte ser certa, devemos pensar que coisas incertas como a vida valem muito mais a pena.



http://anaitsmylife.blogspot.com.br/

Patrícia Gomes disse...

Ai, Luma, grata por ter observado as mudanças no blog :-)
Você não recebeu a carta porque não fiz nenhuma rsrs e adorei a ideia da carta p/ mim mesmo. Fiz esse processo em meditação, mas acho que escrever vai ser muito bom! #valeuadica