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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Você aqui

"O abraço", obra de Gustav Klimt



O que seria viver no passado se teu cheiro ainda pousa em minhas entranhas? Se é aqui, ao lado do meu rosto, que sopra a tua voz falando não-sei-bem-o-quê-depois-eu-penso-nisso? Vivo no presente com tua presença, não com tua lembrança.

Meu sono, antes muito leve, agora é pesado e tranquilo. Um hiato apenas, diariamente à espera daquele milésimo de segundo entre acordar e abrir os olhos, quando revejo você esperando meu despertar.

É tua a voz na música “Canto uma canção bonita, falando da vida em Ré Maior...” não importa o que outras pessoas estejam ouvindo.

Reparo a lua todas as noites, quero estar próxima ao mar com mais frequência, meu apetite se expandiu por encostas desconhecidas, sorrio para minha alma constantemente, viajo...viajo...viajo...
                                                    só para deitar em teu ombro 
                                                                          e morrer em teu abraço.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Saudades de mim


Se alguém, 
em qualquer época da minha vida, 
desde quando a memória me permite relembrar, 
perguntasse o que mais me dava prazer ... a resposta seria LER.

Minha mãe não entendia por que perder o cinema com os colegas se, quando eu voltasse à casa, o livro estaria lá, prontinho para ser continuado. A única vez que cedi a esse argumento foi para comprovar sua invalidade, pois o tempo todo em que estive distante do livro "que estaria lá" não parei de pensar nele e não aproveitei em nada o que para os demais era diversão. Aprendi, bem cedo, que ser autêntica dispende menos energia do que fazer parte do que não tem a ver comigo.

No decorrer dos anos participei de diversos trabalhos voluntários, sendo alguns com deficientes físicos. Apesar de ouvir especialistas dizerem que a deficiência que mais deixa a pessoa desconectada do mundo é a surdez sempre pensava como seria terrível ser cega. Era coisa de adolescente, aquele medo infundado pelo qual todos devem passar em algum momento da vida: perder os pais, não passar no vestibular, não casar, eu temia deixar de ler.

As artes, de modo geral, me preenchem de experiências singulares que não posso cogitar vivenciar de outra forma. Ouvir música! Ouvi apresentações de duas grandes orquestras nacionais e uma internacional, amo tango, choro absurdamente com corais. Mas perdi parte da audição. Ainda ouço, mas sinto que escapa-me algo, há uma vaga sombra de nota entre uma frase musical e outra, canções mais delicadas pedem meus olhos cerrados para aumentar a atenção, o grunge do Nirvana por vezes começa como barulho até que o som surja em mim como talvez seja realmente. Tudo agora, em termos de música, é suspeição.

Enxergo. Tanto quanto no tempo do medo tolo. A leitura, no entanto, quase não existe mais. Talvez por conta dos remédios para controle da bipolaridade ou mesmo pela doença ... não consigo me deter em um parágrafo sem retomá-lo várias e várias vezes. Enfiar-me mar adentro, nadar como se fosse uma arraia prateada, entregar-me a uma história com a confiança de uma criança que gira e gira e gira em torno de si mesma com os braços abertos, isso agora é apenas descrição. O tanto que ganhei quando descobri a literatura perdi aos poucos e perder me parece - desde que me percebi mais pobre - muito pior do que já ter possuído fortuna imensa! Tenho agora o que chamam de membro-fantasma: perdi a literatura, mas continuo a senti-la. Esse sentimento, que poderia ser ao menos uma boa recordação, é mais que tudo dor e frustração. Causa tristeza, raiva, medo, saudade. 

Tenho em mim todos os livros que li, converso com todos os autores que conheci, mas é um mundo mofado e repetitivo, caduco e desbotado, infinito e castrado de novidade. Há nele uma janela sem imagens, por onde passo a cabeça a sentir a brisa e um cheiro bom que conheço desde sempre, dizem que é o cheiro que os livros têm, mas não! É o cheiro que a Vida tem! Essa mesma que já não enxergo, mesmo tendo visão. Essa que não mais pulsa, clama.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Andares



Passeava a Alma, límpida e leve, alegre e integrada a onde quer que fosse. Planava, vivia, sorria, penava um pouco de vez em quando. Num tropeço que deu ao diminuir a chama do candeeiro de um antigo albergue em Olinda deparou-se com um par de olhos muito atentos! Olhos fitos e brilhantes que pareciam atravessá-la e trazer ao presente todo o seu passado - o que tornou-a ainda mais luminosa.

Ele sorriu. E ela pensou nos tantos romances que sua imortalidade permitiu conhecer e lembrou que quase todos começam com um sorriso e alguma morte acontecia. Sorrisos sempre pedem resposta e quando sorriu de volta sentiu seu pescoço arder e o coração disparar como nunca havia sentido. O rapaz, entretanto, desceu imediatamente por uma ladeira estreita e escura. Ela espiou por alguns segundos e seguiu o próprio caminho, até que o olhar com sorriso entregou-lhe um coco gelado.

"Devo estar parecendo uma alma-penada-incendiando", pensou enquanto saboreava a água e ele confessava não se acostumar com as fitas presentes na arquitetura daquela cidade. Ela agradeceu e falou que precisava ir. Ele assentiu e disse que a esperaria todos os dias até ir embora. "Turista, o moço" pensou a Alma, que até ali vivia solenemente seu destino.

Com o nascer do sol a Alma, que não dorme, já havia provado diversas peles e formas e estaturas e cabelos e roupas e calçados. Pôs-se arrumada e foi fazer seu passeio. Procurava não pensar na promessa do rapaz, mas caso se vissem gostaria de estar mais próxima do mundo dele, já que era a única a poder transitar por ambas as esferas. 

A Alma encantou-se. As pessoas no pátio fotografavam, compravam, comiam, dançavam! Ele, ali por perto, sentado numa calçada com algo na mão, estava alheio a tudo, riscando o chão. Vestia a mesma roupa do dia anterior, por isso foi tão fácil encontrá-lo. Chegando perto, viu de relance o rabisco, mas considerou intimidade demais olhar sem permissão, então ficou apenas esperando. Passaram-se minutos para que terminasse o desenho e levantasse o rosto para olhar o movimento, e cruzou com os sorrisos dela: nos lábios e no olhar. Apontou para o desenho:

- Era o que eu tinha de você...
O desenho: seu sorriso, olhar e coração.

Encontravam-se com frequência e a cada dia a Alma estava diferente. Mudava por fora porque estava mudando por dentro e isso é bem claro e simples para as almas. As flores em seu caminho tinham mais cores e perfume, seu olhar trazia mais luz e o sorriso brando vez por outra tocava uma gargalhada.

Imagem daqui
Era desnecessário falar que ele partiria, pois é da vida que os turistas cheguem a esse momento. Até que durante um dia, um dia inteiro, a Alma luziu sozinha. Recolheu do chão algumas folhas e flores, fez uma mandala e ofertou-a a ele, para que fosse seu portão abençoado onde quer que ele estivesse.

Ainda por dois dias escolheu peles e formas e estaturas e cabelos e roupas e calçados e andava pela cidade atenta a movimentos bruscos e sutis, mas ainda mais àquele olhar que conheceu e já não via mais. Despediu-se da fantasia e retomou sua antiga rotina, certa de haver conhecido o Amor e por isso sentia-se imensamente abençoada. 

Imagem daqui
Até que num dia sem data encontrou um coco circundado por uma mandala de flores que brotavam ali perto. Era tarde da noite, mas como Almas enxergam bem em qualquer tempo, olhou ao redor detidamente, coração disparado, e foi ao agachar-se para tocar as flores que viu-lhe os pés. Olhou para cima e outra Alma sorria. O olhar de Amor brilhava ainda mais! Ele ajoelhou-se e novamente a serviu com o que beber. Colheu as flores e fez-lhe um buquê com um pedaço de fita perdida dentre outras. 

Levantaram-se dois sóis de felicidade e quando partiram ainda se pôde ouvir:
- Enfim, essas fitas têm serventia.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Sobre viver o dia

Imagem daqui

Já havia morado aqui antes, mas quando a cidade era menor, ou mais tranquila, ou menos movimentada. Trabalhar e morar agora parece uma aventura devido às distâncias que preciso percorrer e as novidades que encontro quase diariamente.
À noite, retornando para casa desço do ônibus numa praça imensa, que as pessoas sempre atravessam como se monstros habitassem a sombra de alguma das raras árvores que resistiram ao tempo e descuido. Às vezes uso o celular (errado, concordo), mas geralmente caminho devagar, observando as pessoas, o local, o movimento e é assim que chego ao lado oposto tranquilamente e espero o sinal sonoro me fazer olhar os veículos pararem para atravessarmos. É uma coisa que dá poder isso de caminhar na faixa de pedestres sabendo que dezenas de pessoas estão nos olhando, aguardando, salivando com a demora extrema de alguns segundos imobilizadores. De tanto fazer o trajeto ganhei a noção exata do tempo necessário para atravessar minha passarela imaginário e colocar meu último salto na calçada, liberando a tráfego dos veículos.

Desperto então num corredor sempre lotado porque vários ônibus fazem parada ali, sendo impossível estar desatenta. Vendedores ambulantes e seus gritos, músicas e jingles, pessoas conversando e chegando e indo pelas trilhas esburacadas do espaço que não descansa, até que enfim avisto o carrinho de batata-frita. Fim da calçada. Esquina. Mais alguns passos e atravesso outra praça, bem menor do que a anterior, para finalmente pegar o ônibus para meu castelo: uma cama enorme só para mim, uma arara que serve de roupeiro, um aparador onde coloco umas coisas e o notebook, a estante com dezenas de livros, o tablet com centenas de livros, um e-reading com outro tanto deles, três pares de sapatos e minha linda luminária de cabeceira...a mochila chega comigo.

O inesperado pode causar surpresa ou susto. Em mim causou dormência.

Parei no meio-fio e esperei a passagem de mais carros do que o necessário. Não moveria um pé, mesmo que quisesse. Não quereria. Quem era aquele homem!? Um ruivo alto e musculoso movia-se vigorosamente montando seu local de trabalho. Acertou o local do carrinho, agachou-se para abri-lo e retirar banquetas, acendeu o fogo, rosqueou a lâmpada e uma luz amarela iluminou mais seu rosto. Vi sua pele branca dourar tremulante até que estivesse tudo firme. Respirei. Pisquei os olhos algumas vezes, como quando precisamos acostumar os olhos ao ambiente. E, sim, eu precisava acostumar meus olhos ao que estava diante de mim. Temendo ser notada, baixei a vista e segui para casa.

Há dois caminhos possíveis: pela calçada onde fica seu carrinho de acarajé ou pelo meio da pracinha. Sendo o mais discreta possível, sempre escolhia a calçada, assim podia vê-lo mais de perto, observar algo novo. Jamais cogitei maior aproximação, nem pensava nele até que atravessava a avenida e ia em sua direção. Numa noite nada especial, por estar faminta, resolvi desconsiderar a quantidade de vezes que aquele óleo foi reutilizado e parei para comprar. Os bolinhos tinham, milimetricamente, o mesmo tamanho e a mesma cor. Após a troca de quatro ou cinco frases, cada um seguiu suas horas.

Numa sexta-feira vi o moço conversando com alguns homens. Pela primeira vez vi seu sorriso. Que sorriso lindo! Como sorria lindo aquele rosto claro e avermelhado! Não tendo mais nada a fazer na calçada, comprei um saco de batatas-fritas e comi duas antes de entregá-lo ao filho de um vendedor de CDs falsificados. O vendedor de acarajés falava com os rapazes, olhava para todos enquanto falava, mas não perdia seu carrinho de vista. Parecia uma dança, quase um acontecimento que o tão educado cozinheiro também soubesse sorrir assim. Cogitei comprar...mas não quis perder o momento então atravessei a praça olhando-o vez por outra. Mais à frente olhei para trás e observei que ainda vinha luz daquele canto da praça.

Todas as (poucas) vezes que pedia o bolinho esperava que ele apenas confirmasse comigo “Camarão?”. Assim, eu saberia ser a Rosa dO Pequeno Príncipe e não apenas “mais uma entre milhares de outras rosas”.

Era sempre:
- Oi. Um acarajé.
- Prá viagem?
- Não.
- Camarão ou frango?
- Camarão.
- Quanto é?
- Três reais. Obrigada e volte sempre. (Falado rápido, como se estivesse atendendo a uma fila de clientes)
- Obrigada! Boa noite!

Dias depois, noites depois...dias e noites depois...
- Oi. Boa noite...
- Boa noite. Acarajé?
- Você gosta mais de qual: camarão ou frango?
- Como?! Ele parou com o bolinho inteiro numa mão e a faca erguida na outra
- Qual você prefere?
Pareceu perder o fôlego por instantes, olhou para o carrinho, depois para mim, já com ar descontraído, e respondeu:
- Frango. Mas camarão também é bom!
- Um de cada. Pra viagem. Separados.
Ao colocar nos sacos de papel teve o cuidado de sinalizar o que levava o de frango. Peguei-o e devolvi-lhe esse pacote. 

Sorri e falei:
- Pra você. Boa noite!

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Era das poucas mulheres que combinam mochila e salto alto. Usava vestido e mochila. Cabelos cacheados longos e depois curtos, mantendo os fios brancos. Sua voz curta e baixa seria tímida se seu rosto fino não trouxesse o olhar seguro de quem recebe a vida a plenos pulmões. Eu sempre tinha que me curvar um pouco para ouvi-la e numa dessas vezes senti seu cheiro. Não é de perfume que falo, é de cheiro. Sua pele tinha algo que me atraía, que despertava minha curiosidade.

A pontualidade com que chegava me fazia estar à sua espera desde que o sol se punha, enquanto eu arrumava o carrinho e distribuía as cadeiras em volta dele. Sentia como se estivesse aprontando a casa para recebê-la. E então, após milhares de minutos vigiando a calçada, quando aparecia um cliente e eu me voltava para lá, ela vinha. Tão leve, parecia distraída em um mundo particular, quase sorria para todos em volta, sempre olhava em várias direções e observava o céu com frequência.

Olhava um pouco o celular e guardava-o. Passava sem me olhar, enquanto eu me concentrava em mexer a massa.

Passei a olhar o céu quando estava sozinho.
Passei a procurar nele o que ela procurava.
Passei a procurá-la nele.

Acho que era casada, mas não olhei se tinha aliança. Tinha comportamento de mulher comprometida, embora fosse simpática e educada. Na segunda vez que comprou achou que seu ônibus estava vindo então teria que correr. Adorei essa noite. Era assim. Quando ia comprar ela vinha pela calçada e ia parando devagarzinho. Se eu estivesse ocupado e não pudesse atender logo, ela não chamava, esperava cordialmente até ser atendida. Dizia boa noite num sussurro, o olhar baixo e com um sorriso meio-preso fazia o pedido. Aconteceu nesse dia que ainda estava caminhando e acho que pensou em comprar um acarajé quando viu um ônibus parecido com o seu, tocou em minhas costas, pois eu estava de frente para o carrinho e disse “Eita, desculpa, é meu ônibus!” e saiu correndo. Fiquei olhando-a sorrindo por ter se preocupado em explicar quando eu nem a tinha visto. Ela voltou! Mais linda ainda, sorrindo muito, com o rosto brilhando, dando uns saltos infantis e disse:
- Não era ele, posso pedir meu acarajé. Boa noite!
- Então vou fazer logo pra não perder seu ônibus. Frango ou camarão?


Ela sempre pedia camarão. Se comprasse mais vezes eu até poderia preparar sem que pedisse, só com sua aproximação. Na última vez que a vi ela comprou um para ela e me deu o outro, no sabor que eu disse ser meu preferido. Passei o resto da noite pensando se havia entendido direito, se poderia falar melhor com ela da próxima vez, mas não houve outra. 

A moça foi embora, levando seu cheiro e seu sorriso e me deixando exatamente como era antes dela: sozinho com meus bolinhos.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Leve e traz ;-)


Pensei em escrever sobre leveza quando vi a imagem acima, que tenho guardada em minha coleção de imagens-que-acho-lindas. Fiquei olhando para ela por alguns segundos e senti seu peso. O peso da imagem. O peso do que existe na dimensão física.

A vontade de falar sobre a leveza, no entanto, persistia. Pus-me então a ouvir música e a voz de Zeca Baleiro numa balada romântica e uma guitarra perfeita me pareceram leves. Ouvi duas, três, quatro canções. O peso voltou. Da existência...será?

O que seria leve? Sobre a leveza de quê eu falaria? Neste momento, tudo pesa: o toque bem leve do carinho de minha filha, as passadas das pessoas, os sentimentos mais sinceros, o amor verdadeiro. Pesam. E a leveza, que tanto procuro, onde vou achar?

Dentro de mim existe um espaço. Não consigo precisar sua dimensão, porém sei que é lindo e confortável. Há nele carinhos, verdades, sentimentos, pisadas, cheiro de terra molhada de chuva e sol quente depois de tempestade. Há um "Eu te amarei pra sempre" que durou um beijo, o cartão de uma amiga de infância pedindo para reatarmos a amizade, a pista do aeroporto acendendo ao por do sol, estrelas cadentes, tontura depois de rodar com as vizinhas na calçada de casa, cheiro de gasolina do fusca do meu primeiro amado, minha mãe tirando meus tênis enquanto eu dormia, um amigo tocando violão para aplacar minha dor, mensagens de "força" de amigas distantes/ainda amigas/ex-amigas, cheiro de pescoço em abraços de despedida, poemas nunca escritos, brinquedos quebrados, torta de abacaxi quente que nunca comi porque precisava sair, salto de paraquedas, avenida Paulista à noite, todas as crianças com quem brinquei, nadar por debaixo de canoa, cambalhota na areia da praia, queda de patins, sorrisos de todos os lados e por todos os motivos, o primeiro choro de minha filha, o último sono de minha filha, o último beijo de minha filha.

E ficaram leves 
                         a imagem, o Zeca, as pessoas, o paralelepípedo*, as abelhas e os sons.


* Chico Buarque é único ser humano que faz essa palavra ser como outra qualquer. Aqui.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Efêmero, terno e eterno

Acredito nas diversas possibilidades que existem para a alma ser tocada. 
Um corpo toca o outro. As almas desses corpos tocam-se ou de retraem.
Imagem daqui

O cheiro da pele do seu ombro escreve "Quer namorar comigo?" em minha garganta e enquanto sinto seu carinho em várias partes do meu corpo ergo só um pouco a cabeça; ele também. Sorrio. De alegria mesmo.
Volto a descansar meu rosto em seu ombro e uma placa de madeira velha e encharcada d'água, ainda cheirando a sargaço, surge em minha garganta. Em tintas nas cores amarelo, azul e vermelho, numa letra bem desenhada e decorada com bolinhas brancas feitas com a ponta do cabo do pincel está escrito "Quer namorar comigo?".
Era um pedido verdadeiro? Eu queria namorar com ele? O que penso sobre namorar? Estava pronta para qualquer resposta? 
Perguntas, dramas, projeções...tudo na mente. 


Minha alma não habita em minha mente. 
                                                Habita o mundo...
                                                                   e vive perto de mim.


Mesmo sabendo disso, pensei "Pergunta mais babaca!". De olhos fechados, de poros abertos, inspirei sua pele e o recebi. Sem fragrância alheia, de perfume ou de rua ou ou ou. Apenas ele: Ele-acúmulo-de-experiências-inconsciente-genética numa combinação única que de diversas formas, ali, eu recebia.
- Quer namorar comigo?
- Pra sempre.

E esse ser
      que acaricia com as mãos e as pontas dos dedos
          que encaixa a sola de nossos pés
               faz carinha de emoji (sem querer)
                  brinca
                     filosofa
                        sorri
                      beija
                  esfrega as pernas nas minhas contendo seu peso
            me afaga quando deito em suas costas  
poderia dar outra resposta ou nenhuma e seria igualmente perfeito.

A vantagem de deixar as almas doces conversarem é que sempre sabem fazer brilhar.

Antes da despedida minha alma fala novamente:
- Obrigada
- Por quê?
  Sorri! 

E quem não sorriria diante de uma Vida leve, linda, luminosa?
Imagem daqui porque não fotografei meus olhos


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Numa tarde fria


Apenas no ano passado fui a São Paulo três vezes. Contando com essas, em todas as anteriores nunca peguei uma tempestade na cidade. Na região da Serra da Mantiqueira, sim, tempestade de fazer medo, mas o sonho não foi na serra e sim na cidade. Em meio aos apáticos pedestres e pulsação da cidade.

Estávamos em quatro e minha amiga organizava as reservas com o recepcionista enquanto eu observava a chuva pela porta do hotel. Havíamos subido cinco degraus forrados de tapete vermelho e eu esperava ao menos cheiro de mofo no local. Nada. Aliás, cheiro de chuva...mas não o cheiro que sentimos em nossa casa, que é de terra molhada...era um cheiro molhado, um barulho espalhafatoso de tempestade, um friozinho de gelar a ponta do nariz e a isso nomeei "cheiro de chuva". 

À esquerda de onde estávamos uma pequena mesa redonda em madeira marrom sustentava um vaso de porcelana com flores bem arranjadas. Por instantes esperei que, de repente, Humphrey Bogart finalmente aparece (em cores) naquele salão e algum piano tocasse Casablanca. Ao invés disso, recebi um cartão e cada um dos meus colegas também. Olhei para a mão de minha amiga e pensei "Não deveríamos ficar no mesmo quarto?"
- Qual é o teu andar? Perguntei enquanto arrastávamos as malas.
- Décimo segundo, o teu quarto é aqui, terceiro. Disse-me, parando o elevador e praticamente me levando até meu aposento.


Fiquei sozinha ali no corredor cinza e preto - no chão, de novo. Nada de mofo, nada de sons. É o pior momento de uma hospedagem em hotel, sempre tenho a sensação de que haverá alguém no quarto que estou prestes a abrir ou que o cartão não vai funcionar e terei que voltar para a recepção ou de que algum empregado local vai olhar para mim com ar desconfiado. Nunca acontece nada disso. Novamente, esperei tudo isso e algo inusitado demais para minha criatividade. O inusitado surgiu quando abri a porta. Vi-me diante de um janelão de vidro com borda em bronze. Borda fina e desgastada, mas pelo visto recebi o quarto com o pé direito mais alto do prédio! Sim, havia uma cama de casal com colchão de futon e não liguei as luzes, deixei que o sol acima das nuvens me fornecesse o quarto mais aconchegante que já havia visto. 

Assim que peguei o telefone para chamar minha amiga e compartilharmos daquela visão a porta do quarto abriu e ele entrou. De camiseta branca, dessas Hering que homens costumam usar por baixo de camisas de manga comprida. Dessas que homens com o corpo dele podem muito bem sair usando na Avenida Paulista e atravessar em qualquer ponto sem faixa de pedestre sem-medo-de-ser-atropelado.

Vamos a Ele. Ele, que não foi citado antes, certamente continuaria coadjuvante se não fosse a ousadia de perturbar meu sono, invadir meu sonho e ainda por cima de camiseta branca e em perfeito e absoluto silêncio. Silêncio desses que precede a algo raro, um silêncio de carvalho, que nada consegue adentrar, que obriga a todos os sentidos se aguçarem e faz o corpo perceber a maciez da pele do outro sem nenhum toque sequer.

James Dean e nadaver com o "meu" cool guy
Eu estava sentada no meio da cama, olhando para a chuva e segurando o telefone. Olhei para a porta e lembro apenas de ver seu olhar fixo em mim e sentir, imediatamente, o cheiro de sua respiração. Tão perto estávamos que tive receio de respirar fundo e incomodá-lo, no entanto precisava respirar, coisa que não fazia há alguns segundos. Ins-pi-rei bemmmm devagar, soltando o telefone e ex-pi-rei len-ta-men-te, sorrindo com os olhos e apontando para a vista. Seus olhos continuavam em mim. O calor da sua pele explicou a vestimenta mínima para aquele dia tão frio e então comecei a ficar confusa, as ideias embaralhando e o que eu achava ter sido um presente dos céus se transformou em "E se veio pedir o carregador do celular?" "E se quiser apenas continuar o trabalho?" E se..." sua mão abraçando minha nuca e o sorriso de quem lê pensamentos alheios foi um banho de felicidade quente num corpo que tremia de ansiedade - e nenhum frio, nenhum medo.

Sério: acordei.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Um corpo - O corpo

Imagem daqui
Você sabe como é o corpo de quem você gosta? 

O corpo de meu afeto é feito de ar. Respiração. Curta, profunda, lenta, forte, muda, sonora, falante, gritante
Seu corpo pede urgência, mas ao tocá-lo o tempo para e uma bruma toma conta de tudo em volta
Escorre-lhe dos cabelos uma festa gelada que brinca com meu rosto, molha meu colo, batiza minha testa
Sobe dele um vapor perfumado de ervas variadas, cheira a algo levemente doce e um tanto apimentado
Ao menor gracejo de um pensamento seus olhos brilham e a vontade de sorrir me vem antes mesmo de qualquer palavra dita
O corpo desse homem me cobre, me veste, despe, pesa, sustenta, acalenta, desperta, alegra. Vivifica.

É assim o corpo do meu homem

domingo, 29 de maio de 2016

Morte virtual, ferida real



Hoje eu fui (virtualmente) bloqueada. Houve uma discussão e a pessoa disse "Vou te bloquear", penso que ainda respondi "Não faça isso, é absolutamente deselegante".

A palavra elegante é tão elegante, mas tão elegante, que até seu oposto não parece algo negativo ou ruim. 
E fui então, deselegantemente, bloqueada.

Para quem nunca viveu isso: a sensação é de morte. Pior, de inexistência. Pior! De estar no purgatório ou no mármore do inferno ou no umbral ou em algum lugar onde você fala, chora, berra...mas a outra não te ouve. Ahá! É ainda pior! Porque ela não quer te ouvir. Rolou uma discussão com ofensas mútuas e daí, para fazer as pazes, você pode querer mandar uma foto ajoelhada com a frase "Perdoe-me por tudo", mas ela não quer te perdoar, não quer saber se está chorando ou sofrendo ou odiando-a.

Por não ser católica, não terei missa de 7º dia, então a despedida foi ali mesmo no "Vou te bloquear". É claro que estou lembrando do livro Amor Líquido, de Bauman, mas uma coisa é ler e outra é ter a lança transpassando minhas vísceras. Além do mais, o MEU amor, aquele que eu oferto, não é líquido.

Ser bloqueada é ser negada, mas também é como morrer depois de conseguir o emprego dos sonhos e estando grávida de 7 meses; é como estar feliz porque minha mãe, finalmente, foi conhecer Paris e de repente recebo um telefonema que me presta condolências em três idiomas, exceto o meu; é como ser amiga da dona da festa e ela não te dirigir o olhar e sequer abrir o presente que dei. E ser bloqueada por uma amiga é saber que ela está sofrendo, que ela sabe que você também está e não poder dizer que a ama...afinal, isso não faz diferença. Mortos não falam com vivos. Mortos não importam mais. Aliás, importam, mortos importam, os bloqueados é que não.



Ah, Bauman, meu querido, que difícil viver em plena sociedade líquida vivendo amores líquidos e sentindo dores de carvalho! Mas sabe, Bauman, o homem se adapta e tem umas antenas que os faz encontrar seus iguais. 

Já sei como é ter a existência-sentimento-importância negados. Na verdade a infância teria muito a ensinar sobre isso, porém é uma fase em que sentimos mais do que aprendemos, então vou contar minha lição a partir de meu bloqueio. Vou aprender com ele alguma coisa além de usar palavras de maior efeito do que "deselegante".

Bloqueados choram? Depende dele e de quem bloqueou. Eu chorei. Pela sensação de aprisionamento, de impotência, de querer falar e não poder. As lágrimas secaram, a dor diminuiu, a tristeza vai passar, nem tenho nada a falar e já já vou lembrar do ditado mais antigo e certo deste mundo: "Cada um só dá o que tem." Ela não quis o que tenho e tem todo o direito a isso. Inclusive de ser deselegante. O injusto é que o bloqueado é obrigado a receber.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Quarto fechado

Imagem daqui

Começaram a brigar pelo único campo ainda neutro na casa: a pia da cozinha. Ele cozinhava e lavava a louça, enquanto ela guardava. Isso não mudou, no entanto ela queria que usassem bucha vegetal e ele não abria mão da esponja. O casamento acabou aí.

Não havia mais pelo quê brigar, nenhum argumento era válido, nenhuma discussão levava a qualquer lugar, o diálogo outrora fluido deu lugar a monólogos cheios de rancor e acusações. Não cuidaram de si, nem do Amor, ou das outras virtudes que moviam a relação.

Hoje ela encontrou uma esponja no fundo da gaveta. Sentou-se no chão, como se sentisse alguma tontura, mas era apenas cansaço. Pensou num novo amor. Nenhum plano, nenhum projeto, nenhum desejo de que seja eterno, mas acudiu-lhe ao coração a vontade sincera de que se tivesse que acabar que fosse quando algo importante deixasse de fazer sentido.

Quando duas pessoas se unem a relação é uma terceira pessoa e é assim que deve ser tratada, cuidada, há que se sentir amor pela Relação como sentem um pelo outro.


Jogou a esponja no lixo, limpou a calça, depois as mãos, e foi aguar as plantas pensando em como deve ser bom 
amar em paz!

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Um conto sem ponto

Daqui

A foto foi mal feita, havia sido revelada por engano junto com as outras daquela viagem. Marcília aparecia sozinha, sorrindo muito, e foi justamente por essa felicidade que essa fotografia tinha sido conservada. Dentro de um livro, durante anos, uma mulher bonita e radiante estava à frente do mar aberto e via-se, olhando com atenção, o ombro no qual sua cabeça tocava.
Alguns momentos são ideais para encontros inesperados. Uma mudança de casa e a necessidade de embalar tudo, desfazer-se de alguns pesos que receberam carga de afeto no passado e agora já não passam de...coisas. 
Livros que não serão mais lidos vão sendo separados para doação e aqui-ali se encontra um bilhete, marcador de página amarelado, conta paga, um casal pela metade.
Foi o que a fez perder o ritmo. Buscava, olhando a foto, lembrar o motivo da separação, mas as lembranças daquele dia vieram tão nítidas que o cheiro de maresia inundou a sala e embaçou seus olhos. A pele morena com uma flor de sal deixada pelo mergulho no mar fez o rosto de Marcília enrubescer e voltou-lhe aos lábios o sabor do homem que sempre descompassou seu corpo inteiro. Em segundos o apartamento virou o pano de fundo de cenas de beijos, carícias, abraços, sussurros, sorrisos, olhares. Onde estavam as palavras? Não havia a menor lembrança da voz dele, não lhe ocorreu nenhuma frase, diálogo, promessa ou discussão. Uma gaita, no entanto, ia e voltava ensaiado um bolero antigo. Era essa a voz dele dentro dela.

Se apenas o prazer lhe corria nas veias agora, o que ela fazia naquele piso bagunçado e sujo e sem qualquer fotografia do homem onipresente?

No único móvel restante no ambiente, uma mesa de canto, o impresso foi colocado. Escorado na parede, pousado como se estivesse num porta-retrato agora era ele quem observava a mulher separando os livros, metodicamente folheando-os. Rasgava a dedicatória que porventura houvesse naqueles que seguiriam em breve para alguma biblioteca pública e os demais tinham por destino uma caixa plástica. Concentrada, absorta, sem distração alguma, rapidamente guardou tudo e preparou-se para sair.

O banho rápido denunciava o atraso para um compromisso importante. O vestido estampado com flores miúdas sobre o fundo amarelo opaco iluminou ainda mais seu rosto encantador e cachos despretensiosamente penteados pendiam sobre as costas em decote.
Havia sempre uma caneta na bolsa. Comprava-as sem muito critério e sorriu ao ver que a tinta que riscava o verso da foto era cor-de-rosa e exalava perfume adocicado. O calor inusitado daquele dia a fez pensar se seria mesmo a hora ideal para ir, mas prontamente desfez-se da ideia de atrasar ainda mais.
Uma espiada pela janela trouxe a voz dele a seus ouvidos. Soou como pancada de porta fechada pelo vento. Ah, o vento! Esse não sabedor de limites, eterno viajante a quem pouco importa o fechar e bater de portas atrás de si, o baque de objetos ou o ar que se vai no susto causado.
Havia escrito seu nome e telefone. Desviando o olhar do céu ensolarado escreveu a exata frase que ouviu dele naquele passeio que, sem saberem então, marcaria seu último encontro.


Quem mais neste mundo entrega correspondência em mãos e ainda por cima em envelope branco? A tinta rosa destacava-se lá dentro e embora não fosse possível ler o que estava escrito a letra ligeira e desenhada rasgou-lhe o sorriso no cenho que tornou-se franzido quando o porteiro fez sinal para abrir a janela, acenando com o envelope.

MARCÍLIA
 5438-4321
"Estou te esperando desde ontem"


Pediu que o portão fosse reaberto e, enquanto para ele o mundo dos ponteiros funcionava ao contrário, o telefone dela atendeu ao segundo toque, ele reviu a antiga fotografia e disse:

- Estou indo. Espere só um pouco mais. Espero desde aquele dia...